2054 antecipado

Luis de Matos - Thursday, August 25, 2011 - Comments (1)

Sempre se especulou se seríamos melhores pessoas se agíssemos sempre como se estivéssemos a ser observados. Já não é uma suposição ou sequer uma longínqua ameaça. Está a acontecer! Estamos mesmo constantemente a ser observados. O reconhecimento facial enquanto tecnologia está hoje ao alcance de todos nós. Está, por isso, na hora de actualizarmos o nosso conceito de privacidade num mundo de realidade aumentada.

Desde o início da década de sessenta que se fala em reconhecimento facial feito por computadores. Nos dias de hoje o desempenho das máquinas ainda fica aquém da capacidade dos seres humanos no que toca ao reconhecimento de rostos. Mas não teremos que esperar até 2054 para ver o “Minority Report” de Steven Spielberg tornado realidade. Há pouco mais de 15 anos, antes dos motores de busca, nunca suspeitaríamos poder vir a fazer uma pesquisa de texto, à escala global, em escassos milésimos de segundo. Hoje em dia, já podemos fotografar alguém na rua e descobrir tudo sobre esse alguém através das características únicas da sua cara.

O reconhecimento facial automático já é actualmente utilizado em aplicações reais, especialmente em vigilância e segurança, e, mais recentemente, na Web 2.0, ou mais concretamente na forma como os usuários vêm e interagem com a internet. As regras do jogo mudaram a partir do momento em que a Google, através do Picasa, a Apple, através do iPhoto e o Facebook, via Face.com, colocaram essa possibilidade ao alcance dos dedos do mais comum dos utilizadores.

A convergência das tecnologias e o crescente hábito de partilharmos a nossa vida nas redes sociais são factores chave nesta corrida em que o “presente” tenta ultrapassar o “futuro”. Em 2010, 2.5 biliões de fotografias foram partilhadas por usuários no Facebook… em cada um dos doze meses desse ano!

Sendo a face de cada um de nós a mais fiel ponte entre a nossa identidade online e offline, é agora possível relacionar as duas em matéria de segundos. O nosso rosto, na rua ou online, pode agora ser ligado a todo o tipo de dados a nosso respeito. A fusão entre esses dois mundos, com grande ajuda dos universos paralelos Facebook, Linkedin, Google+ e outros, permite, de forma absolutamente democrática, termos acesso ao que poderíamos chamar “Real ID” e que sumariza quem somos, o que temos, o que sentimos, o que pensamos, o que vivemos e, inclusivamente, onde nos encontramos em cada momento.

No “Minority Report” de uma suposta realidade de 2054, tecnologia semelhante era usada para prevenir o crime. Contudo é no consumismo que as novas funcionalidades provam ter grande potencial… Imagine marcas e produtos que podem escolher quem abordam em função dos seus perfis? Já imaginou um mundo onde um estranho na rua pode adivinhar o seu nome, interesses, histórico bancário, património e condição de saúde? É por essas e por outras que, nos próximos anos de “realidade aumentada”, em que os dados online e offline são misturados em tempo real, seremos forçados a reconsiderar a nossa noção de privacidade.

“Realidade aumentada, privacidade reduzida…”

Força Colectiva

Luis de Matos - Thursday, August 18, 2011 - Comments (0)

O comportamento de indivíduos em grupo é um assunto que psicólogos e sociólogos estudam com grande seriedade. Contudo, na sua essência, é algo que já todos experimentámos de forma mais ou menos superficial. Algo que podemos observar à nossa volta e que a aldeia global e a livre circulação de informação vieram potenciar mas, por outro lado, algo que é inerente à nossa própria natureza.

Quantos de nós já não decidimos fazer algo verdadeiramente radical num cenário de grupo quando nunca ousaríamos dar tal passo se estivéssemos sozinhos? Fazer bungie-jumping nas férias, tomar banho num rio poluído à beira de um festival de verão, ou jogar na roleta numa ida ao casino com amigos? É a força do grupo e a forma como ele estimula a acção fazendo desaparecer momentaneamente os nossos medos. Certo é que, quando em grupo, sempre aceitamos enfrentar riscos maiores.

A circunstância é habitualmente a desculpa que serve de gatilho. Os tumultos recentemente havidos no Reino Unido poderiam, aparentemente, ser interpretados como a resposta popular ao tiro da polícia que levaria morte do gangster Mark Duggan. O sucedido deu origem a uma primeira vigília pacífica. A consequência adulterada dessa contestação, que viríamos a ver nas ruas de várias cidades inglesas, nada tem a ver com sede de justiça ou solidariedade para com o dito gangster. Os tumultos foram alimentados pela ganância e a “excitante” possibilidade de roubar e destruir de forma caótica e impune.

Conheço advogados de sucesso que se transfiram numa parada gay mas que nunca ousariam chegar a um tribunal vestidos de drag queen, professores universitários que insultam ferozmente os árbitros e que nunca admitiriam tais palavras vindas dos seus alunos. Tais atitudes em nada comprometem a sua individualidade e consciência mas o grupo dá-lhes a força acrescida que alimenta e faz divergir o seu comportamento. É a força de um grupo numa dada circunstância.

O código abaixo reproduzido leva-nos para um video no Youtube onde duas jovens bem falantes se gabam de mostrar à polícia inglesa, poder fazer o que quiserem, afirmando que atacar os ricos é apenas disso um sinal. Páginas poderiam escrever-se sobre a irracionalidade e profunda estupidez presentes na sua acção e discurso. Uns diriam que a causa de comportamentos como este é o fracasso do multiculturalismo, a ascensão do Estado ao bem estar e a procura incessante de direitos, o colapso da família e da comunidade, a secularização da sociedade, a relativização da moralidade e da opressão do politicamente correcto. Não discuto. O que, sim, é para mim evidente é que foi na força do grupo e nas características da circunstância que essas alminhas encontraram o indutor de uma força que não têm e de uma coragem que individualmente não lhes assiste.

Mais preocupante que os distúrbios propriamente ditos é o facto de que um novo e mais forte grupo pode emergir. Entre os que foram presos e os que escaparam mas guardam “troféus” em casa, sejam plasmas ou fotos nos seus telemóveis, existem agora milhares de jovens que têm uma história em comum. Os pequenos grupos que isoladamente emergiram podem agora juntar-se e vir a lutar numa frente comum.

A psicologia de massas diz-nos que, pessoas comuns ganham poder agindo colectivamente. Somos muitos os que achamos que é urgente embeber as gerações vindouras num verdadeiro espírito de comunidade onde o respeito e a solidariedade social sejam as bandeiras. O segredo é “simples”… só temos que nos manifestar e “forma um grupo”, talvez assim tenhamos mais força e coragem.

“As coisas que não ousaríamos fazer se estivéssemos sozinhos”

Homeopatia

Luis de Matos - Thursday, August 11, 2011 - Comments (1)

É um sistema de cura inventado por Samuel Hahnemann (1755-1843), um médico alemão que rejeitava as práticas tradicionais da sua época, que incluíam hemorragia, purga, vómitos e a administração de químicos altamente tóxicos. Dois séculos mais tarde, a ciência e o senso comum consideram a homeopatia como uma das mais evidentes fraudes dos nossos dias. Porém, isso não faz com que a indústria apresente quaisquer sintomas de recessão ou que não continuem a haver pessoas que afirmam ter sido curadas pela homeopatia.

Os princípios subjacentes à homeopatia, formulados inicialmente por Hahnemann com a melhor das intenções, só podem hoje gerar em nós um incontrolável sorriso. Fundamentalmente defende que uma determinada doença se cura pela ingestão do mesmo agente patogénico que a originou, devendo a dita substância  estar ritualisticamente diluída em água. Dizem mesmo que, quanto mais diluída estiver a substância, mais forte será a solução. Perdão? Sim, é isso mesmo que acaba de ler. Na caixa de qualquer medicamento homeopático poderá verificar que uma das soluções mais comuns é a 30C. Essa concentração, numa realidade visualizável, equivale a dissolver um pequeno grão de sal fino num aquário do tamanho do planeta terra. É natural que os medicamentos homeopáticos não tenham efeitos secundários… nem primários!

Os medicamentos homeopáticos são naturais e seguros? Talvez, mas nem tudo o que é natural é bom. O veneno de uma cobra ou o raio de um trovão são disso exemplo. Quanto a ser seguro, é relativo. Por tratar-se de água apenas, é verdade que podemos ingerir toneladas de medicamentos homeopáticos que nunca padeceremos de uma overdose. Já não é assim tão seguro se estivermos apenas a adiar um tratamento eficaz na esperança de que a água com memória faça a sua “magia”.

Pessoas que acreditam na Homeopatia dirão que não há nenhum estudo sério e globalmente aceite por defensores e detractores em que se demonstre o total bluff que é a homeopatia. É mentira. Isso é simplesmente o que ouviram daqueles que querem que acreditemos no seu negócio. Os estudos existem e estão publicados, mas quantas pessoas mais terão de sofrer, ou até mesmo morrer, antes que alguns percebam que a homeopatia é uma fraude?

Será que esta discussão importa? Sim, importa. A homeopatia é pouco ética, irracional e profundamente perigosa. Longe vão os tempos da “banha da cobra” e, nos dias de hoje, não faz sentido vender gato por lebre, especialmente quando a saúde de um ser humano está em causa. É profundamente irracional achar que uma divagação de há quase 200 anos possa sequer ser considerada uma alternativa aos constantes desenvolvimentos da indústria farmacêutica. É perigoso quando vemos à venda tratamentos homeopáticos para a malária e para a sida. O perigo de morte surge quando as pessoas conferem à homeopatia a capacidade de curar doenças incuráveis e que necessitam de uma abordagem séria em vez de uma solução de água e farinha.

A ilusão que continua a curar... ou talvez não.

Quebrar a Corrente

Luis de Matos - Thursday, August 04, 2011 - Comments (1)

Quantos de nós não receberam por correio a história do menino que se encontra numa fase terminal de cancro e cujo último desejo é o de entrar para o Guinnes com a sua colecção de cartões de visita? Este é apenas um dos milhares de exemplos de “cartas em cadeia” cujos objectivos são bem distintos dos que aparenta o seu conteúdo.

A “carta em cadeia” consiste numa técnica de recolha de informação em massa, feita de forma pro-activa e aparentemente voluntária, com base em pressões psicológicas ou simples ganância inata. Habitualmente são usadas histórias emocionalmente manipuladoras ou esquemas piramidais para ficar rico num instante. Paralelamente a esses tipos de “isco”, recorrem ainda à exploração da superstição para ameaçar o destinatário com má sorte ou até mesmo violência física ou morte, caso "quebre a corrente" e se recuse a aderir ao proposto na carta.

Longe vai o tempo em que tais missivas chegavam até nós exclusivamente por via postal. Hoje em dia os burlões, ou até mesmo algumas empresas cujo prestígio não deveria ser beliscado pelos seus responsáveis, recorrem ao email, às mensagens escritas e às redes sociais. Frases como “Por favor fotocopie esta mensagem e envie para 10 pessoas durante as próximas 24 horas” são agora substituídas por “Reencaminha já para todos os seus contactos de correiro electrónico”. O seu texto é criado com o intuito de defender a sua própria reprodução e o sucesso do mesmo basea-se na impulsividade que induz e na, real ou intuída, ameaça de sansão nele presente.

Mas será que a única consequência é o tempo que tais jogos nos fazem perder? Longe disso. Quando reencaminhamos um e-mail, impulsivamente e sem grandes precauções, fornecemos ao próximo destinatário uma lista de endereços e contactos. Quando os nossos amigos, por sua vez, fazem o mesmo estamos perante uma escalada imparável de partilha de dados pessoais. A análise dessa informação permite o estabelecimento de relações e padrões de comportamento que são altamente apetitosos para o amigo do alheio. Uma vez nas mãos erradas, tais listagens permitem o delinear de ataques muito específicos com base nos nossos perfis.

Petições e concursos são a forma mais moderna de “cartas em cadeia”. O objectivo é o mesmo, apenas se altera o modus operandi. Pense duas vezes antes de reencaminhar avisos de vírus, piadas e videos engraçados. Desconfie, proteja-se e proteja os seus amigos. E, claro, pense duas vezes sempre que a primeira coisa que lhe pedirem, depois de seguir um qualquer link, for o seu nome, endereço e número de telefone.

Caso o seu hábito seja o de partilhar tudo o que cai na sua caixa de email, pelo menos, e para bem de todos nós, faça-o por favor em “Bcc” e não em “Cc”…

“Fotocopie esta página e mande a 10 pessoas. Caso contrário…”

Burla 419

Luis de Matos - Thursday, July 28, 2011 - Comments (1)

Após o surgimento do email, ficámos mais familiarizados com uma antiga forma de burla. Alguns teremos tido a sorte de perceber ou ser avisados a tempo. Outros terão uma história menos feliz para contar. Acreditem, os que habitualmente acusam os demais de ingenuidade são quem mais contribui para as estatísticas dos enganados. Por muito espertos que nos consideremos, é bom relembrar que, por algum motivo, este tipo de burlas continua em prática.

A “Burla 419”, também conhecida como “Nigerian Scam”, basea-se na ideia de que um estrangeiro rico precisa de ajuda para transferir os seus fundos e está disposto a partilhar a fortuna com quem o assistir. Na sua essência, este enredo de burla tem origem no conhecido esquema do “Prisioneiro Espanhol” e remonta ao século XVIII. Na sua forma original, o vigarista diz à sua vítima (qualquer um de nós…) que está em contacto com alguém detentor de uma fortuna incomensurável e que essa pessoa se encontra presa em Espanha sob identidade falsa. Supostamente, o preso não pode revelar a sua identidade sem que isso tenha repercursões seriíssimas. Assim, tendo conseguido contactar com um seu amigo (o malandro que nos contacta) precisa agora de algum dinheiro que permita esclarecer todo o mal entendido. A promessa é clara… se ajudarmos, seremos faustosamente recompensados.  Uma outra versão consiste em sermos contactados por alguém que afirma ser funcionário de uma instituição governamental ou banco, advogado, solicitador, amigo ou herdeiro de alguém cuja fortuna precisa de um conjunto de procedimentos para ser libertada.

Quem morde o isco envia pequenas somas em dinheiro e vai sendo alimentado com informação aparentemente real que se destina a manter a certeza de que está perante a oportunidade da sua vida. Essa aparente certeza leva a que a vítima envie mais dinheiro e o burlão continuará a “esticar a corda” até que a vítima se canse. Porém, mesmo os que não enviam dinheiro, e apenas não conseguem evitar o desejo de saber mais e responder, também acabam por ser prejudicados. Os roubos de identidade através de dados pessoais ingenuamente por nós fornecidos são inúmeros e trazem com eles consequências absolutamente desastrosas.

Todos estamos expostos diariamente a esquemas destes. Uns mais elaborados, outros mais ingénuos. Não responda a mensagens não solicitadas, especialmente se se tratarem de propostas de negócio, pedidos de assistência, avisos de uma herança potencial, propostas de investimento ou oportunidades de ajudar uma instituição de caridade.

Nos últimos dias, duas pessoas da minha família foram alvo de tentativas de burla deste tipo, uma por email outra por carta. Em ambos os casos nada foi deixado ao acaso. Por email chegou uma promoção plausível de 200€, aparentemente enviada por uma conhecida rede de supermercados. Por carta registada, oriunda da África do Sul, o contacto de um advogado falando da morte do nosso muito querido Manuel Arriaga (que não conhecemos) e da sua herança por reclamar. Não se ria… um destes dias calha-lhe a si…

“Os que mais se riem são quem primeiro caem”

René Lavand

Luis de Matos - Thursday, July 21, 2011 - Comments (2)

Uma das mais notáveis características do ser humano passa pela sua capacidade de adaptação. As circunstâncias que teimam em assumir o controle da vida de cada um de nós determinam inevitavelmente o nosso dia-a-dia. Quando essas nos são absolutamente favoráveis quase nem pensamos na maneira como influenciam a nossa forma de ver e entender o que nos rodeia. Quando são menos simpáticas quase sempre caímos na tentação de maldizer a nossa sorte, esquecendo-nos de que o tempo gasto nessas lamúrias seria bem mais útil se utilizado em aceitar uma determinada realidade, porventura menos agradável, e tudo fazer com que possa acabar por ter consequências positivas se correctamente interpretada e convertida em aprendizagem.

Sou dos que acreditam  que tudo se perde na vida menos o que aprendemos. Empiricamente ou através de estudo continuado, é o que diariamente aprendemos que nos transforma no que somos. Recordo sempre que um dos mais ameaçadores momentos que vivi, acabaria por ser decisivo na forma como sinto o que me rodeia. Sofri um brutal acidente aos vinte e três anos de idade. Saí ileso e mais forte. A imortalidade que se perde aos quarenta anos fugiu-me das mãos a caminho dos estúdios da RTP Porto. Percebi nesse dia que, a qualquer instante, a nossa vida pode mudar irreversível e irreparavelmente. Acho que nesse dia passei a ser melhor pessoa, a respeitar mais os que me rodeiam e, acima de tudo, aprendi a tentar ser digno da experiência maravilhosa que é estarmos vivos.

O nome que hoje dá título a esta página é de alguém que também teve um acidente de automóvel. René Lavand, argentino de oitenta e três anos, sofreu o acidente aos nove de idade, altura em que já contava com dois anos de experiência como amador de magia. Perdeu a mão direita. O pai disse-lhe que era o fim dos seus truques de cartas. Disse-lhe ainda que nunca mais na vida iria poder transportar dois baldes, apenas um. René prometeu a si mesmo perseguir o seu sonho e, quem sabe, chegar a conseguir pagar a alguém que transportasse ambos os baldes. Hoje, René é um dos maiores e mais respeitados mestres da magia mundial. A sua vida é um exemplo de constante adaptação e de uma perseverança absolutamente inspiradora.

Falo-vos dele por hoje ter acabado um documentário sobre a sua carreira e as suas criações. Trabalho que inclui um espectáculo de enorme grandeza apresentado, para convidados, no Palácio Nacional da Ajuda. Passa assim a ser o terceiro mágico a apresentar as suas sortes naquele espaço. O primeiro foi “The Great Herman” (1885) e o segundo este V. servidor (2006). René Lavand garante, assim, que o seu exemplo e o seu talento perdurarão no tempo e não deixarão de a todos inspirar.

Recordam-se da metáfora do copo de água? Vale sempre a pena achar que está meio cheio. A vida sabe melhor e fazemos mais felizes os que connosco a partilham.

“Problemas que se transformam em oportunidades”

Made in Centro

Luis de Matos - Thursday, July 14, 2011 - Comments (0)

A segunda edição da Essential Magic Conference aconteceu no passado fim de semana. Ao longo de três dias, o mundo da magia esteve de olhos postos em Ansião. Com transmissão em directo para sessenta e dois países, trinta e três dos mais importantes mágicos à escala global, partilharam a sua experiência, os seus segredos, e a sua forma de pensar e criar.

A qualidade dos palestrantes, o rigor na produção, a vanguarda da tecnologia implementada, e, acima de tudo, o empenho aliado ao talento somado, voltaram a ser motivo de aplauso e regozijo por parte da comunidade mágica internacional.

O que hoje aqui sublinho é o facto de tudo isto ter sido ideado e tornado realidade por pessoas da zona centro do país. A ideia surge e os primeiros passos são dados com discrição no seio do núcleo duro do Estúdio 33. A Essential Magic Conference acontece exclusivamente na internet. Em directo, a comunidade mágica assiste e interage com os trinta e três mágicos presentes na sala. Para tal, foi necessário criar a infra-estrutura web que permitisse converter o sonho em realidade. Os magos do código fonte foram encontrados em Coimbra. A empresa “We Break Stuff” não olhou a esforços e não se conformou com dificuldades. Fred Oliveira, Pedro Freitas e Fábio Batista fizeram com que indecifráveis combinações de letras e números constituíssem os mecanismos responsáveis pela perfeição do funcionamento online.

De entre os trinta e três mestres presentes na sala, um deles, David Berglas, de oitenta e cinco anos de idade, partilhou connosco a música que sempre o acompanhou em todos e cada um dos milhares de espectáculos que protagonizou ao longo da sua carreira. Interpretada por monges ou sinos, grandes orquestras ou pequenos ensembles. A música de que falei chama-se “Abril em Portugal” e nós preferimos chamar-lhe “Coimbra é uma Lição”. No final da conferência, no pretexto da homenagem merecida ao decano da magia, a criação de Raul Ferrão foi ouvida nos cinco continentes. Também aí foi o talento da nossa região que foi aplaudido em uníssono. O “Cancioneiro de Coimbra”, em colaboração com Álvaro Aroso, emocionou os presentes e arrebatou os cibernautas com a sublime interpretação ao vivo da melodia que mais presente esteve na vida e obra de David Berglas.

Os bastidores do evento foram documentados através da singular objectiva de mais um talento de Coimbra, o fotógrafo Paulo Abrantes. As suas fotografias constituem um evento dentro do evento. Uma face que surpreende de uma realidade quase virtual.

Por fim, a equipa que me concede o privilégio de ser o seu lado visível. Obrigado a todos. Parabéns a todos. A história da magia foi irreversível e positivamente alterada… na zona Centro de Portugal!

“Talento somado de forma surpreendente e inspiradora”

Vende-se

Luis de Matos - Thursday, July 07, 2011 - Comments (0)

É o que o mais comum dos mortais faz quando o dinheiro escasseia. Antigamente era o “prego”, hoje vende-se o ouro da família, o carro, os móveis, os discos e até comida. Tenho um amigo sueco que comprou um carro a um coleccionador americano através do eBay, o mais popular site de leilões online. Claro está, que isso não é nada comparado com as mais ridículas vendas feitas online. Desde braços para publicidade, à disposição para neles serem tatuadas marcas conhecidas até jantares com celebridades, passando por brinquedos sexuais em segunda mão, tudo se vende. São as regras impostas pela austeridade.

Até aqui, nada há de trágico, por maior que seja o nosso espanto quando confrontados com as listagens dos sites online que nos permitem arranjar compradores interessados para o que já não queremos ou podemos ter. A tragédia anuncia-se quando percebemos que caminho semelhante é o escolhido pelos países. É isso mesmo o que está a acontecer. Vários países europeus estão a fazer rigorosamente o mesmo.

Alguns do países mais endividados da Europa estão a colocar à venda alguns dos seus melhores activos numa tentativa de reforçar a sua credibilidade internacional. Não falo só da Grécia e de Portugal, o mesmo está a acontecer na Irlanda, em Espanha, em Itália e, inclusivamente, em terras de sua magestade, Inglaterra.

Os privados que tiverem dinheiro podem agora comprar vários serviços de controlo de tráfego aéreo de diversos países, a Coudelaria Nacional da Irlanda, o aeroporto de Barajas em Madrid ou o HMS Ark Royal da Marinha Real Inglesa.

Cá pelo burgo também muito é o que se prepara para estar à venda. Concretizado o resgate, vamos agora vender 49% de quase tudo, para além de empresas, aeroportos e imóveis onde antes funcionavam governos civis.

Admiramo-nos quando sabemos que os chineses compraram parte de Manhatan no estado de Nova Iorque, mas nada disto é novo. Há muitos anos também a bela e imponente Quinta da Regaleira, em Sintra, pertenceu a um grupo de japoneses que se preparava para tudo terraplanar e aí fazer um mega campo de golfe. Mas seria essa a verdadeira intenção? Talvez não…

O que sempre acontece é que o Estado vende hoje para voltar a comprar, mais caro, amanhã.

“A Europa transformada numa espécie de eBay para ricos…”

EMC2011

Luis de Matos - Thursday, June 30, 2011 - Comments (0)

Os grandes eventos que atraem a atenção global acontecem, naturalmente, nas grandes capitais do mundo. As cidades com maior força mediática, poder, recursos, lobby, visão, tradição e experiência são as recorrentes anfitriãs. Infra-estruturas hoteleiras e aeroportuárias são igualmente determinantes para, sequer, sonhar com a realização de um evento com dimensão verdadeiramente global. Além disso, não organiza quem pode e quer. Trazer para o nosso país ou cidade um acontecimento com dimensão suficiente para fazer história passa ainda por concursos e grandes jogos de bastidores.

E se inventássemos um evento à medida dos nossos recursos? Um evento cuja atribuição não tivéssemos que ganhar? Um evento para o qual não tivéssemos que investir milhões em infra--estruturas que mais tarde para pouco servem? Os “velhos do restelo” dirão que sonhar com tal coisa é um misto de poesia, ingenuidade e arrogância. Para eles, aqui fica a prova de que é possível…

Em 2009 tive uma ideia. A regra que impus a mim próprio era a de seguir os pressupostos do enunciado que acabo de referir. Assim nasceu em 2010 a “Essential Magic Conference”. Uma conferência mundial de magia onde as estrelas são trinta e três dos mais importantes nomes da magia à escala global. Durante três dias, os mágicos convidados partilham técnicas, ideias e segredos, numa discussão absolutamente “state of the art”. Não o fazem apenas entre si. Em 2010, a conferência contou com a participação de mágicos de quarenta e quatro países do mundo! Onde se realizou o evento? Nova Iorque? Tóquio? Lisboa? Frio, muito frio… Aconteceu na vila de Ansião.

Foi um evento sem precedentes, aplaudido e elogiado à escala global. A partir de suas casas, por todo o mundo, os participantes formaram parte de uma verdadeira cadeia de união que ficou marcada pela trilogia “Learn, Share, Collaborate”.

Constituiu uma realização absolutamente pioneira, tendo sido classificada como “Épica” por todos quantos nela participaram. Este ano, a Essential Magic Conference voltará a acontecer uma vez mais, de Portugal para o Mundo. Em directo do Estúdio33, alguns dos melhores mágicos que a arte alguma vez conheceu vão partilhar a sua sabedoria, experiência, criatividade e, acima de tudo, a sua paixão pela arte de criar ilusões.

Nos dias 7, 8 e 9 de Julho, nomes como David Copperfield, Paul Daniels, Lu Chen, Marco Tempest, David Berglas, Richard Wiseman e René Lavand, entre outros, trinta e três no total, vão dar vida à segunda edição da Essential Magic Conference. Para saber mais sobre a EMC2011, basta, como sempre, seguir o código QR abaixo reproduzido.

Quem insiste em dizer que está tudo inventado… engana-se.

“Ansião no centro do mundo durante 3 dias”

Universo Paralelo

Luis de Matos - Thursday, June 23, 2011 - Comments (0)

O título talvez seja exagerado, mas a explosão das redes sociais veio definitivamente consubstanciar uma realidade alternativa. Uma realidade globalmente exposta e absolutamente viral. Longe vai o ano de 1971 em que o primeiro email foi enviado. Hoje em dia, os conteúdos circulam livremente em espaços como o Twittter, o Facebook, o Youtube e tantos outros. No Facebook podemos encontrar mais de 500 milhões de usuários activos, metade dos quais acede à rede através de dispositivos móveis, com centenas de amigos e cerca de 700 biliões de minutos passados por mês no casa do senhor Mark Zuckerberg.

Quando actualmente olhamos para as estatísticas referentes aos vários níveis de comunicação entre pessoas, poderemos ficar preocupados com o facto de a conversa “cara-a--cara” aparecer em décimo lugar. Nos primeiros lugares estão o Twitter, o Facebook, o email, as SMSs e o telefone, entre outros. Não é, provavelmente, um mau sinal já que não quer dizer que nos tenhamos afastado das pessoas com quem nos cruzamos diariamente. Significa, isso sim, que estamos mais próximos dos que estão longe.

As redes sociais vieram dar às pessoas o poder de partilhar numa escala maior. Estar ligado ao mundo que nos rodeia nunca foi mais fácil e acessível do que é hoje. Com as pessoas a quererem fazer ouvir a sua voz e partilharem o que, no seu entender, é importante, as redes sociais transformaram-se numa das maiores indústrias do nosso tempo. Antigamente era o “boca a boca”, hoje é o “partlhar no perfil”.

Mas será que ninguém desconfia por que razão tudo nos é dado literalmente “à borla”? É simples. A publicidade que nos obrigam a consumir é paga por nós. Mas não apenas isso. Nós mesmos, de livre e espontânea vontade, oferecemos diariamente dados que nunca confessaríamos a alguém que nos parasse na rua para fazer perguntas. Tudo o que colocamos nas redes socias passa a ser propriedade das mesmas. Não me refiro apenas a fotos, textos e comentários. Refiro-me aos nossos gostos e preferências. Informação extraordinariamente valiosa para quem cria e vende produtos. Na rua, desconfiamos de alguns inquéritos, porém, na internet respondemos durante o nosso horário de trabalho ou durante o pouco tempo que poderíamos dedicar à família, a todo o tipo de estímulos deixando que isso fale por nós.

Na vida real nunca ninguém nos apontaria uma máquina fotográfica sem sequer pedir licença. Porém, nas redes sociais, qualquer um pode simplesmente arrastar qualquer imagem pessoal para o seu computador. A técnica evolui mais rapidamente que a capacidade de legislar. A técnica evolui mais rapidamente que a nossa capacidade de reagir. Veja-se o exemplo do Facebook, criado em 2004. Apenas sete anos mais tarde vêm as autoridades inglesas apelar aos professores para que não incluam alunos no seu núcleo de amigos online. As barreiras são difíceis de estabelecer quando o terreno é desconhecido.

Não é ficção… o “universo paralelo” existe mesmo.

“Reflexões sobre redes sociais, no dia em que atingi os 50.000 fans no Facebook”