E.coli

Luis de Matos - Thursday, June 16, 2011 - Comments (0)

De maneira geral, as teorias da conspiração ganham sempre milhões de adeptos muito rapidamente. As pessoas estão dispostas a acreditar em histórias mirabolantes a propósito de, praticamente, qualquer assunto. A partir do momento em que existe um vácuo de informação, a especulação e a conspiração proliferam velozmente.

Nas últimas semanas a bactéria Escherichia coli tem estado na ordem do dia e já todos a conhecemos pelo seu diminutivo E.coli. Com um número crescente de mortes (trinta e cinco à hora a que vos escrevo), quase quatro mil pessoas infectadas, e a economia de vários países a ressentir-se ferozmente, a Escherichia coli fez estremecer a Europa.

Notícias divulgadas a propósito do código genético da nova estirpe da bactéria vieram levantar questões e fomentar o advento de umas quantas teorias da conspiração. Aparentemente, a estirpe em causa é resistente a mais de uma dúzia de antibióticos. As várias teorias apontam para que tenha sido “maquinada” em laboratório, e de seguida, libertada no abastecimento de alimentos ou de alguma forma escapado de um laboratório entrando na cadeia alimentar inadvertidamente. Como todas as boas teorias da conspiração, fundada ou não, esta dá azo a umas quantas interpretações, quase todas ainda mais espectaculares.

Assim, começa agora a falar-se de terrorismo biológico. Diz-se que se vêem servidos os interesses da agricultura industrial e da indústria alimentar. Volta ao de cima a suposta estratégia dos grandes grupos farmacêuticos. A teoria é simples… primeiro causa-se o problema, a população reage aterrorizada e, em resposta, surgirão os novos fármacos e/ou o controlo sobre o abastecimento global de alimentos. Será que o fornecimento de produtos frescos começa a ter o seu fim anunciado?

Contudo, se a estirpe não foi fruto de bioengenharia na busca de uma superbactéria mortal, e apenas uma mutação natural, então talvez devêssemos estar ainda mais assustados. Será que as análises do código genético da estirpe, que agora e no futuro se fizerem, explicarão mesmo tudo? E nós? Algum dia saberemos a verdade? Será que aqui começa uma nova era em que os alimentos se convertem em armas biológicas para atacar grandes massas?

Nada sabemos. Até lá, sugiro que mantenhamos o nosso cepticismo em relação às teorias da conspiração e que nos continue a custar acreditar em histórias que mais parecem saídas de uma qualquer série de televisão. Claro está, apesar do facto de que o povo sempre disse que “onde há fumo, há fogo”…

“Será que algum dia vamos saber o que foi isto?”

Voto Obrigatório

Luis de Matos - Thursday, June 09, 2011 - Comments (3)

No domingo passado os Portugueses foram às urnas. Pelo menos alguns. A abstenção voltou a subir e um novo máximo foi registado no passado dia 5 de Junho.

Há quem veja na abstenção um acto político em si mesmo. Na minha opinião, a abstenção é, acima de tudo, um sinal de irresponsabilidade e uma profunda falta de respeito por nós mesmos. Algo de diferente pode e deve dizer-se dos votos em branco. Foram quase 3% os convictos que não ficaram em casa e foram às assembleias dizer que não confiavam em nenhuma das opções. Para a distribuição de cadeiras na Assembleia da República o resultado é objectivamente o mesmo mas simbolicamente bem diverso.

Todos sabemos que votar é um direito e um dever cívico. Um dever que custou a vida a muitos e que muitos de nós não sabemos sequer honrar. Votar é a mais fundamental forma de exercer a democracia e aumentar a responsabilidade dos políticos.

A Constituição Portuguesa prevê direitos e deveres. Talvez por sê-lo em simultaneidade, o acto de votar é visto por alguns como um simples direito e por outros como uma inalienável obrigação, uma responsabilidade da qual não podemos alhear-nos, tanto objectiva quanto simbolicamente.

A pergunta é recorrente, deveria o voto ser obrigatório como na Grécia Antiga o legislou o ateniense Sólon? As opiniões dividem-se e a questão continua a revelar-se pertinente. Há quem diga que o voto é um direito e não uma obrigação, que o voto facultativo é adoptado por todos os países desenvolvidos e de tradição democrática, que o voto facultativo melhora a qualidade dos resultados eleitorais, já que neles apenas participam eleitores conscientes e motivados. Percebo o aspecto filosófico dos argumentos mas discordo da tradução prática dos mesmos.

O dia das eleições deveria ser tão ou mais importante que as celebrações que fazemos da proclamação da República, do dia de Portugal ou do 25 de Abril. Contudo, nesses dias o país pára e, independentemente do dia da semana com que coincide, vive-se o respectivo feriado. Por outro lado, as eleições continuam a marcar-se para os fins de semana em que devemos ou escolhemos descansar. Se é obrigatório comparecer em tribunal quando alguém nos indica como testemunha numa qualquer birra de vizinhos, por que não ser obrigatório irmos votar? Se todos contribuimos com trabalho e dinheiro para um estado de direito do qual, por sua vez, também beneficiamos, não deveríamos então estar livres e conscientemente obrigados a escolher quem nos dirige? É urgente incentivar a participação dos eleitores e conferir ao dia das eleições e ao acto de votar, a importância que lhe é devida.

Com que direito reclama quem não vota? Com menos votantes a democracia enfraquece e a legitimidade questiona-se, mas os que para isso contribuem também perdem o direito moral de fazer críticas.

A plenitude do direito de escolher consubstancia-se, no limite, na opção de votar em “ninguém”. Mas sempre através do voto, nunca pela ausência. É importante que se recorde o tempo em que poder votar era um sonho longínquo. Sejamos merecedores das conquistas dos que nos antecederam. A obrigatoriedade moral de votar reduz a apatia dos cidadãos, fomenta a sua participação activa, aumenta o seu interesse pela política, traduzindo-se em mandatos verdadeiramente democráticos.

“Quem conscientemente se assume cidadão não pode alhear-se de votar”

Prazo de Validade

Luis de Matos - Thursday, June 02, 2011 - Comments (0)

Inúmeros sites de internet garantem poder dizer-nos, com base num conjunto de dados e perguntas mais ou menos patéticas, até quando cada um de nós irá viver. Uns fazem o teste por piada ou curiosidade, outros evitam-no pela ausência desses mesmos motivos.

Uma empresa espanhola chamada “Life Length” acaba de mudar as regras do jogo criando um teste que, alegadamente, desvenda a longevidade de cada um de nós. Por aproximadamente quinhentos euros, o teste garante medir com precisão o comprimento dos telómeros cuja acção se julga ligada à longevidade. Segundo explicam, os telómeros são estruturas que formam as extremidades dos cromossomas e cuja principal função é manter a estabilidade dos mesmos, protegendo-os da degradação ao longo da vida. O teste tem feito as manchetes de jornais do mundo inteiro e está já disponível em inúmeros países. Mas não é do teste que vos quero falar…

Costumo dizer que o mundo seria melhor se tivéssemos algumas conversas e atitudes pensando que talvez pudessem ser as nossas últimas manifestações. Acredito mesmo que isso nos conferiria uma tolerância acrescida e um melhor usufruto do tempo que cá passamos e da memória que guardarão de nós. Mas quais seriam as implicações se pudéssemos saber se vamos viver até aos trinta ou até aos noventa anos?

Fazer batota com a vida, conhecendo antecipadamente o seu terminus, ou mesmo pistas acerca da longevidade, e definir os nossos passos como quem gere uma agenda, teria consequências difíceis de imaginar. A discussão começa a ser a propósito de deverem ser ou não, os testes genéticos oferecidos ao público e quais seriam as implicações éticas, se os resultados fossem utilizados por, por exemplo, empregadores ou outros responsáveis.

Se soubéssemos hoje até que idade vamos viver o que mudaria nas nossas decisões? Casaríamos? Será que comprávamos carro e casa? Decidiríamos ter filhos mesmo sabendo que não estaríamos cá para os educar? Será que os bancos nos emprestariam dinheiro a trinta anos? E os seguros de vida, com que pressupostos e taxas os fariam as companhias de seguros? E quanto a descontarmos de bom grado para a segurança social, sabendo que não chegaríamos à idade da reforma? Que faríamos hoje se soubéssemos que vamos morrer amanhã?

Contra o colapso do maravilhoso prazer da vida continuemos, pois, a viver e agir no pressuposto de que amanhã cá continuaremos para lidar com as consequências das nossas decisões. Esse é o lado mais belo do inigualável privilégio de estarmos vivos.

“O que mudaria se soubéssemos quando morremos?”

Sensacionalismo teológico

Luis de Matos - Thursday, May 26, 2011 - Comments (0)

Um surpreendente número de cidadãos dos Estados Unidos da América, estimado entre vinte e quarenta milhões de pessoas, acreditavam que o juízo final teria lugar no passado dia 21 de Maio. Uma campanha nacional de proporções sem precedentes, e absolutamente viral, fez ecoar a previsão apocalíptica de Harold Camping. A mensagem era clara: Jesus Cristo chega a 21 de Maio e levará com ele todos aqueles que nEle acreditam.

Harold Camping, com 79 anos de idade, é um respeitado teólogo estadunidense, profundo conhecedor dos textos sagrados e católico confesso de grande notoriedade social. Há muitos anos previu e anunciou, baseando-se na bíblia, que o fim do mundo aconteceria em Setembro de 1994. Perante o fracasso e insensatez quase insultuosa dos seus cálculos, seria de esperar que se tivesse deixado dessas coisas. Não.

Há sensivelmente dois anos, o Sr. Camping anunciou uma nova data para o dia em que Deus revelado desceria à terra. Seria a 21 de Maio de 2011 às seis horas da tarde. Um tremor de terra global seria seguido pela literal subida aos céus de todos os católicos. Cinco meses depois, a 21 de Outubro, Deus destruiria por completo não só o planeta mas todo o Universo. Milhões de fundamentalistas religiosos multiplicaram a mensagem e contagiaram uma nação. Campanhas de rua por todos os estados, das grandes capitais aos pequenos lugares, estações de rádio e de televisão, imprensa escrita, blogs e redes sociais, deixaram os Estados Unidos em alvoroço.

Nada aconteceu. Ou melhor, coisas fantásticas aconteceram. Para bem se prepararem para o grande dia,  muitos crentes venderam os seus carros e casas, dando o dinheiro a familiares não religiosos para que estes pudessem sobreviver até Outubro. Mas houve também espaço ao empreendedorismo. Alguém se lembrou que todos temos animais de estimação e que muitos ficariam sem dono quando os seus amos partissem para o céu. Foi aí que nasceu a empresa “Eternal Earth-Bound Pets”.

A empresa montou centros de acolhimento em 26 estados dos EUA. Empregados e voluntários garantem ser ateus e por isso continuariam cá depois do dia 21 de Maio. Afirmam ter os meios, a capacidade e o desejo de garantir e assistir a vida natural dos animais de estimação. Tudo isto por apenas 135 dólares. No seu sítio da internet pedem desculpa por, infelizmente, não estarem equipados para acomodar todas as espécies e, por isso, devem limitar os seus serviços a cães, gatos, pássaros, coelhos e pequenos mamíferos de jaula. O que, sim, era garantido pela empresa era a paz de espírito para os donos que se preparavam para partir.

Nada disto é novo. Desde meados do século XIX que os mais variados prevaricadores, isoladamente ou no âmbito de grandes comunidades religiosas, vêm anunciando com assinalável convicção a data e hora para o fim do mundo. Todas falharam “graças a Deus”. Há, contudo, uma previsão que ainda está por confirmar. Sir Isaac Newton, baseando-se em cálculos realizados a partir da interpretação das escrituras do Antigo Testamento, concluiu que o Apocalipse não poderia acontecer antes de 2060.

“Juízo final adiado sem pré aviso”

Milagre! ou talvez não…

Luis de Matos - Thursday, May 19, 2011 - Comments (0)

A capacidade humana de relacionar factos isolados, e a partir deles criar as mais extraordinárias fantasias é, de facto, ilimitada. Todos já experimentámos tal prática no nosso dia a dia. É por isso que algumas pessoas se acham possuidoras de uma energia especial quando, ao passarem por um poste público de iluminação, fazem, aparentemente, com que a sua lâmpada se acenda. Para elas é óbvio… o candeeiro estava apagado e no momento em que passaram a lâmpada acendeu-se. São dois factos sem qualquer relação entre si para além da coincidência do momento em que ocorrem que, alias, até é bastante vulgar.

É esse poder de relacionarmos factos por forma a que alimentem as nossas próprias convicções que, uma vez mais, fez furor na comunicação social. Vejamos, pois, como dois factos reais e inquestionáveis são relacionados dando azo a relatos tão criativos e misteriosos. Não esquecendo, ainda, o factor catalizador extra…

FACTO 1: No passado dia treze de Maio, por volta das doze horas e trinta minutos, formou-se uma auréola à volta do Sol. Essa auréola é conhecida como “halo” e trata-se de fenómeno óptico perfeitamente estudado e que acontece com grande frequência em dias de boa visibilidade. Consiste num anel luminoso centrado no Sol e provocado pela refracção da luz. Pode também acontecer durante a noite, em redor da lua, sendo então chamado um “halo lunar”.

FACTO 2: No passado dia treze de Maio, por volta das doze horas e trinta minutos, era exibido, no Santuário de Fátima, um filme sobre a relação do Papa João Paulo II com Nossa Senhora de Fátima. A recente beatificação do Papa João Paulo II, a sua devoção a Nossa Senhora de Fátima e ainda, toda a simbologia associada ao dia treze de Maio, faziam da multidão presente no santuário de Fátima um grupo particularmente predisposto ao maravilhoso e divino.

A forma como acabo de, individualmente, descrever os factos um e dois será, acredito, consensual para qualquer cidadão minimamente informado e de “boa fé”. Até aqui, estamos todos de acordo. A discórdia surge a partir do momento em que alguns de nós procuram relacionar os dois factos de maneira que suportem as mais singulares teorias do divino. Para mim, são somente isso... dois factos e nada mais.

Se entre os 2500 caracteres que em cada semana vos dedico, eu decidir escrever a palavra “morte” isso será um facto. É igualmente insquestionável, e por isso um facto, que em cada segundo das nossas vidas alguém morre num qualquer canto do mundo. Ora, se então relacionar os dois factos surgirá a seguinte certeza… “há uma pessoa que morre cada vez que escrevo a palavra morte no meu computador”. O que, no limite, não é uma inverdade.

Mas no dia treze, em Fátima, aconteceu algo que funcionou como excelente catalizador para o divino relacionamento dos factos um e dois… Os sacerdotes que presidiam e participavam nas cerimónias resolveram sacar os seus telemóveis dos bolsos e começaram a tirar fotografias ao céu. O que esperariam que a multidão de fiéis pensasse enquanto os seus mestres optavam por tirar fotografias ao sol em vez de ver o filme com atenção?

“Milagre é quando um homem quiser…”

Osama indelével

Luis de Matos - Thursday, May 12, 2011 - Comments (0)

Osama bin Mohammed bin Awad bin Laden, fundador da al-Qaeda, a organização responsável pelo 11 de Setembro nos Estados Unidos e vários outros ataques homicidas em massa, contra alvos civis e militares, nasceu a 10 de Março de 1957 e foi assassinado no início deste mês de Maio. As notícias sobre a sua morte, as leituras, os comentários e as opiniões vindas de todos os quadrantes têm inundado a internet e a comunicação social em geral. Muito se tem dito e especulado acerca das consequências políticas da morte do fundador e líder da Al-queda. Não é disso que vos vou falar.

Tão logo ocorreu a tragédia do ataque às torres gêmeas em Nova Iorque, começaram de imediato as discussões, as conjecturas e, até, os concursos de ideias acerca do que deveria ser construído no lugar antes ocupado pelas torres. Imediatamente me ocorreu aquilo que, ainda hoje considero ser uma boa ideia ou, pelo menos, a melhor que consegui ter. Na minha opinião a única resposta possível seria construir um monumento que reproduzisse rigorosamente o aspecto e a escala das torres tal como as conhecíamos até ao dia 11 de Setembro. Seriam assim duas torres absolutamente idênticas àquelas que o terrorismo tinha feito ruir. Seria exclusivamente um monumento que, tendo tamanho e aspecto reais, não seria utilizável ou frequentável. No seu interior não existiriam escritórios nem milhares de trabalhadores. Ao não ter sido esta a solução encontrada, a “obra” de Bin Laden será para sempre celebrada cada vez que a linha de horizonte de Nova Iorque nos passar pelos olhos, seja ao vivo ou em postais ilustrados. Na sétima arte a perenidade da sua acção é sempre assinalada com comentários que situam a data da feitura de determinado filme como “antes” ou “depois” de Bin Laden, em função de vermos ou não as tão características torres. Tal facto situa Bin Laden numa posição de referência em matéria de cronologia quase semelhante à de Cristo. Até 2001 somente se utilizava a expressão “antes” ou “depois” de Cristo. Depois da queda das torres o mundo adoptou o “antes” ou “depois” de Bin Laden. É pena que, aparentemente, ninguém tenha pensado o suficiente para evitar tamanha idolatração do mal.

Também fiquei atónito com a ligeireza com que dirigentes e cidadãos anónimos se apressaram em dizer ter sido feita justiça com a morte do líder terrorista. Em primeiro lugar, sendo cidadão do primeiro país do mundo a abolir a pena de morte, acho que nada se resolve com a morte de alguém. Ainda assim, e se fizermos a mais simples das comparações aritméticas, como é possível que alguém ache que, com a morte de uma pessoa, se vinga a perda de cerca de três mil seres humanos no dia da tragédia, e muitos mais em tudo aquilo que se seguiu?

Talvez o maior feito da CIA na última década não tenha sido assim tão bem feito…

“Bin Laden vivo para sempre”

Sai Baba falhou

Luis de Matos - Thursday, May 05, 2011 - Comments (0)

Sathya Sai Baba nasceu como Sathyanarayana Raju em 1926 e acaba de partir para um qualquer suposto céu privativo. Aos catorze anos autoproclamou-se como a reencarnação de Sai Baba. Morre cinco biliões de dólares mais tarde, aos oitenta e quatro anos de idade.

O seu grande truque era a materialização de cinza sagrada e outros pequenos objectos como anéis, colares e relógios. Os milhões de devotos que no mundo inteiro o idolatravam nunca tiveram dúvidas acerca dos seus poderes. Porém, basta ver meia dúzia de vídeos seus no Youtube para perceber que a sua técnica era tão má que teria certamente grandes dificuldades em convencer uma criança de que aquilo que fazia tinha algo de extraordinário ou inexplicável. Só a cegueira do fanatismo alimentou o seu poder e permitiu que construísse uma fortuna incomensurável. Sai Baba sempre foi tecnicamente muito fraquinho, quase ridículo. Porém, os seus seguidores viam sinais de divindade em cada um dos seus truques mal ensaiados.

Verdadeiro ícone cultural atraiu, como devotos, presidentes e primeiros-ministros da Índia, alegando ter seguidores em 178 países do mundo. A morte do “santo” do sul da Índia deixou de luto milhões de seguidores em todo o mundo e abriu a discussão sobre quem vai herdar a liderança da sua rede.

Para uns, ele foi a encarnação viva do Divino. Para outros, não passou de um charlatão de engenhosidade considerável, de espírito perverso e maquiavélico. Homem famoso e controverso, de invulgar carisma, figura enigmática e notável religioso do século passado nunca casou nem teve filhos, foi também recorrentemente acusado de abusar sexualmente de alguns dos seus discípulos. No final do século XX o número dos seus seguidores era estimado em mais de três milhões de pessoas ao redor do mundo. 

Segundo a lenda, aos 14 anos, terá sido picado por um escorpião, começando a apresentar sinais de delírio e alucinações. Convencidos de que estaria possuído, os seus pais convocaram um exorcista local que lhe raspou cabeça, marcou o seu couro cabeludo com quatro Xs e sobre as feridas derramou uma mistura de alho e limão. Pouco tempo depois, o miúdo autoproclamava-se a reencarnação de Shirdi Sai Baba, um dos santos mais venerados no sul da Índia, que morreu em 1918. Era o nascimento de um mito e de um complexo negócio de dinheiro, droga, armas e influência.

Sendo a Índia um país onde a tradição da arte mágica foi sempre renovada ao longo dos tempos por grandes profiissionais, é irónico que um dos piores amadores da arte se transforme, com truques simples e mal executados, numa das mais poderosas e influentes figuras da vida social e política do país.

Para grande pesar dos seus ingénuos seguidores, Sathya Sai Baba falhou o seu último truque… a previsão de que só morreria em 2020. E, pergunto eu, ninguém denuncia uns quantos “Sai Baba”que por aí andam?...

Morre o prestidigitador vigarista mais rico do mundo

Geotracking no iPhone

Luis de Matos - Thursday, April 28, 2011 - Comments (0)

Dois jovens talentos das ciências da tecnologia descobriram que o sistema operativo IOS4 da Apple, presente em dispositivos como o iPhone, arquiva um registo detalhado de dados geográficos dos seus utilizadores. Pergunto eu, qual é o problema? Quem não deve não teme. Acho mesmo que até pode ser útil.

Para um cidadão inocente que se veja indiciado numa qualquer ilegalidade, esta informação pode até revelar-se de importância extrema, podendo dessa forma provar onde se encontrava num certo dia a uma determinada hora. Mas esse mesmo ficheiro permite também conhecer rotinas privadas. É aqui que os puristas da privacidade se exaltam e nós devemos reflectir. Se alguém nos roubar o telemóvel, ou a ele aceder por via informática, pode então reconstruir a nossa vida recente, conhecer os nossos hábitos e saber, com rigor aterrorizador, onde trabalhamos, tomamos café ou vivemos.

Isso é mau. Mas será que, de facto, estamos genuinamente preocupados com a nossa privacidade? Sinceramente acho que não. Há meia dúzia de anos, na internet, todos usávamos nomes falsos. Foi a era dos nicknames. Hoje usamos nomes completos e actualizamos diariamente as fotografias que nos identificam nas redes sociais. Quase sempre sem perceber que tudo o que na internet se coloca não só deixa de ser legalmente nosso, como acontece no Facebook e demais redes sociais, como pode mesmo contribuir para que hipotequemos não só a nossa liberdade mas até mesmo o nosso futuro.

Vejo com alguma estranheza pais que colocam fotografias dos seus bebés no Facebook e jovens que publicam orgulhosamente fotos das suas bebedeiras. A tão falada “pegada digital” é indelével mas poucos têm disso consciência. O que esperam os utilizadores das redes sociais? Colorir o album fotográfico de tarados e pedófilos? Hipotecar as eventuais futuras entrevistas de emprego? Permitir que patrões e colegas de trabalho percebam que estão sempre no chat e nas redes sociais quando deviam estar concentrados a trabalhar?

Sou um activo utilizador do Facebook e do Twitter. Acho que a internet é algo verdadeiramente maravilhoso. Defendo uma internet aberta, livre e surpreendente. Gosto de sentir que vivo numa aldeia global. É bom ter acesso à informação quando ela surge e não quando já foi adulterada e o prazo de validade se venceu. Porém, é preciso conhecer as ferramentas para bem as utilizar. Com um carro se transporta alguém às urgências de um hospital, mas com o mesmo carro se pode pôr fim à vida da pessoa que no dia anterior salvámos.

Como artista, e através da internet, comunico-me diariamente com cerca de cinquenta mil pessoas. É para mim, profissionalmente, uma ferramenta inestimável. Há quinze anos colava cartazes a anunciar os meus espectáculos. Hoje, a partir do meu telemóvel, posso anunciar que dentro de cinco minutos vou aparecer na televisão. É, de facto, extraordinário. Mas, tal como no passado eu não ia pelas ruas com um megafone a anunciar a minha vida privada, também hoje não uso as redes sociais para partilhar com desconhecidos informações tão privadas para mim quanto irrelevantes para os outros. As redes socias não são um confessionário, são um jornal de parede a que o mundo tem acesso e cujo conteúdo os seus verdadeiros donos passam a legalmente possuir.

Imaginem um café de aldeia onde tudo se diz e comenta... As redes socias são mais ou menos isso à escala global. A única diferença é que fica tudo gravado e toda a gente pode ouvir, vezes sem conta, para sempre!

 “Os detectives privados deixaram de ter razão de existir.”

Uma língua única

Luis de Matos - Thursday, April 21, 2011 - Comments (0)

É provável que linguistas, filólogos e defensores da língua como símbolo máximo da identidade de um povo não tenham sequer passado da leitura do título desta página. Se o fizerem tenho a certeza de que não subirei na sua consideração, se é que algum dia lhes mereci alguma. Eu sou daqueles que defende uma língua única num mundo verdadeiramente global. Defendo que é muito mais importante aquilo que pensamos do que a fórmula que usamos para transmitir as nossas ideias. Essas fórmulas, desenvolvidas ao longo dos tempos como instrumento de comunicação, compostas por gramática, sintaxe e vocábulos, são utilizadas por “pequenos grupos” de indivíduos que habitam este planeta.

Sinto-me excluído e pobre, quando escuto outros como eu a comunicar entre si e nada percebo. Basta entrarmos numa loja de chineses ou aguardar na porta de embarque de um qualquer aeroporto para de imediato me sentir excluído do mundo que partilhamos. Conheço e simpatizo com pessoas de outros países e culturas com quem não posso comunicar porque os nossos antepassados assim o determinaram. Gosto de comunicar, partilhar o que penso e conhecer as opiniões dos demais. Por vezes, sinto que tanta coisa podia ser dita mas que tal se torna impossível apenas pelo facto de que alguém não fala português e eu só consigo exprimir-me em meia dúzia das cerca de seis mil línguas modernas actualmente existentes no mundo. É triste.

Antigamente a língua era quase um código secreto usado por grupos de pessoas. Esse código era como uma muralha que defendia o grupo, permitindo entre os seus membros uma comunicação impenetrável por intrusos. Hoje vivemos num mundo que às vezes até já parece pequeno. A globalização, apreciada por uns e rejeitada por outros, é uma realidade. Por que motivo não se globaliza a comunicação? Tanto para perguntar e aprender…

Os seres humanos e a sua capacidade biológica de se comunicarem através de uma linguagem rica baseada em símbolos e regras, permite-lhes passar idéias e culturas para as gerações seguintes. Sem língua, a cultura como a conhecemos não existiria. Mas por que não uma comunicação sem fronteiras e barreiras intransponíveis?  Aos defensores da diversidade apenas direi que ela reside naquilo que pensamos e sabemos e não na forma como entre nós partilhamos, ou infelizmente não, essa riqueza.

Curioso que o “The Wall Street Journal” tenha recentemente publicado um texto de Gautam Naik a propósito de um estudo que vem finalmente reconhecer a possível existência da mãe de todas as línguas. Um idioma ancestral, único, falado por humanos como nós, em África, há mais de cinquenta mil anos…

“Substituir forma por conteúdo na busca de uma comunicação global”

Portugal nos cuidados intensivos

Luis de Matos - Thursday, April 14, 2011 - Comments (0)

O nosso país precisa de suporte avançado de vida. O médico intensivista chama-se FMI. O perigo de morte, ou a salvação da banca rota, qualquer que seja a metáfora a que queiramos recorrer, só será possível se o doente colaborar. Porém, o doente só pode colaborar a partir do momento em que toma consciência do seu estado. E isso parece ser algo que ainda falta a alguns portugueses. Temos todos que perceber que a crise é real e incontornavelmente grave. Não é o facto de a ignorarmos que fará com que passe. Não é por gritarmos que deixará de doer e ninguém se cura de cancro até iniciar o tratamento, e quanto mais tarde o iniciar menor serão as possibilidades de cura.

De que adianta recusarmos um determinado tratamento, pelo sofrimento que causa, se é o único meio conhecido para continuarmos vivos? De que adianta recusar o PEC 4 se o que agora aí vem é bem pior? De que adianta os parceiros sociais não saírem da sua atitude autista se as empresas não têm dinheiro para pagar aos seus trabalhadores? De que adianta haver eleições se os partidos continuam a olhar para dentro?

Diz o povo que “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Se o esforço não for de todos não sobreviveremos. Mas atenção, o tal esforço, ou mesmo o sofrimento, não será opcional. Os preços vão aumentar e os ordenados vão baixar e atrasar-se. Os despedimentos vão aumentar e o poder de compra vai baixar.

É a terceira vez que Portugal recorre à ajuda do FMI e as medidas aplicadas em 1978 e 1983 ainda estão na memória de muitos. As medidas de austeridade que aí vêm serão pesadas. O tempo que gastarmos a reclamar será subtraído ao que temos disponível para procurar a salvação. Não é um exagero. Portugal precisa de ser salvo da banca rota. Viver acima das nossas possibilidades é fácil e muito agradável, mas passámos o limite e está na altura de pagar por isso.

A solução é só uma: gastar menos e produzir mais. Será nessa certeza que nos emprestarão oitenta mil milhões de euros. Precisamos de menos sindicatos e mais trabalhadores. Precisamos de menos administradores de empresas públicas e mais justiça nos ordenados desses. Precisamos de poupar mais e gastar menos. Precisamos de menos políticos de carreira e mais homens com sentido de missão.

Quarenta e sete portugueses notáveis assinaram um documento chamado "Um Compromisso Nacional". Um documento apartidário e preocupado. São pessoas deste calibre que podem salvar Portugal. E o que têm eles em comum e que ainda ninguém disse? Têm idade para ser avós. Estão, por isso, mais preocupados com o futuro dos seus netos do que com a sua carreira ou o lucro pessoal. É isso que nos falta. Precisamos de líderes que não contaminem a sua acção social com o seu interesse privado, seja ele o lucro, o estatuto ou a carreira. Precisamos de, acima de tudo, pensar Portugal. Somos uma grande família que começa a passar fome. É preciso trabalhar, é urgente poupar.

“Enquanto há vida, há esperança… mas depende de nós!”