Negócio da China

Luis de Matos - Thursday, April 07, 2011 - Comments (0)

A ocasião faz o ladrão e as contingências estimulam o engenho. O oportunismo de uns e pressão social de outros, aliados à facilidade de em qualquer coisa acreditar, misturam-se naquilo que não é só um “negócio da china” mas que acontece, ainda hoje, na China.

Uma certa falha de inteligência social, faz com que cerca de um terço da população mundial seja aquilo a que a minha avó chamava “leves do crer”. Pessoas facilmente manipuláveis, de credulidade elevada, inseguras, e que em tudo crêem desde que lhes desvendem como vai ser o dia de amanhã. É por isso que todo o tipo de videntes, cartomantes, leitores de sina e vendedores de esperança sob a forma de banha da cobra sempre tiveram o seu negócio assegurado. Têm a capacidade de se reinventar ao longo dos tempos, numa constante criação de novas formas de vender a solução de todos os problemas.

O desequilíbrio de género é um problema antigo na China. O infanticídio e abandono de meninas foi uma realidade comum até à fundação da República Popular em 1949. O povo chinês tem mantido a ideia de que os meninos são melhores do que as meninas, devido à sua posição dominante na família e na sociedade. Embora as leis e regulamentos chineses tentem induzir o tratamento igual a ambos os sexos, na prática, os direitos das mulheres muitas vezes não são garantidos em áreas como educação, emprego, promoção e herança.

O aborto selectivo e o infanticídio feminino foram culturalmente encorajados pela baixo valor das mulheres na sociedade. Muitas são abandonadas face ao suposto fracasso de gerar um filho do sexo masculino. E é aqui que nasce o negócio de que vos falo. Um negócio tão ridículo quanto perverso e real.

Aparentemente, os casais que pretendam ter um filho podem ter à sua disposição um sistema infalível e grátis. São comuns os consultórios de vão de escada que oferecem aos seus clientes uns frasquinhos com uma espécie de poção mágica. Há dois tipos, um para induzir o nascimento de meninos e outro, de meninas. Não que o segundo caso tenha muita procura mas assim se proporciona uma oferta plural.

Na consulta, o casal exprime o seu desejo quanto ao sexo da descendência e, logo de seguida, o mestre lhes oferece um frasquinho condizente com o seu manifesto. A futura mãe deverá, durante os meses de gestação, misturar no seu pequeno almoço uma gotinha da poção oferecida. Quanto custa? Nada. O mestre apenas planta no subconsciente dos seus clientes a ideia de que se a coisa correr bem então poderão dar o que quiserem.

Não é preciso fazer grandes cálculos para perceber que o remédio tende a ter sucesso em cinquenta por cento dos casos. Consequentente, e a troco de uma qualquer água de rosas, o mestre acaba por vir a ser faustosamente compensado.

Talvez porque ninguém se orgulhe de partilhar uma história de fracasso, todas os casos conhecidos são de sucesso absoluto…

“Frasquinhos de esperança sob a forma de certeza”

Carteiristas electrónicos

Luis de Matos - Thursday, March 31, 2011 - Comments (0)

Longe vai o tempo em para sermos roubados era necessário que fisicamente nos tirassem a carteira. Já não constitui ficção achar que numa qualquer fila de aeroporto, à entrada dum estádio ou durante um concerto podemos ficar irremediavelmente mais pobres. Não é sequer necessário que nos toquem para que fiquemos sem dinheiro, serviços e até mesmo identidade.

Com o advento de cada nova tecnologia não é preciso esperar muito para que ela possa voltar-se contra nós, fruto da imaginação e perversidade de alguns. Foi isso mesmo que aconteceu com a identificação por rádio frequência, o RFID, uma tecnologia que utiliza comunicação via ondas de rádio para a troca de dados entre um leitor e uma etiqueta electrónica acoplada a um objecto. Esta tecnologia vem substituir as clássicas bandas magnéticas, sobretudo porque pode armazenar mais informação e pode ser lido mais rapidamente.

Cada vez mais transportamos connosco as ditas etiquetas electrónicas sob a forma de chip. São comummente encontrados em cartões de crédito, passes de transportes públicos ou os usados para abrir portas ou levantar baias em estacionamentos como, também, nos mais recentes passaportes electrónicos. Tudo o que há a fazer é simplesmente passar o cartão na frente de um leitor e tudo aquilo que ele representa se torna para nós imediatamente acessível.

Acontece que, por menos de cem euros, podemos comprar leitores na internet. Leitores que, convenientemente adulterados e adaptados na forma e aspecto, podem passar perfeitamente despercebidos nas mãos de um qualquer amigo do alheio. Transporta-se tranquilamente na mão e, uma vez próximo das nossas carteiras, absorve toda a informação que permite ao larápio tecnológico aceder a tudo aquilo que pensamos guardar em segurança no nosso bolso.

O roubo acontece, por isso, em circunstâncias semelhantes às clássicas mas com tecnologia dos dias de hoje. Situações em que dividimos o nosso espaço com muitos outros, como filas, manifestações e concertos, são absolutamente ideais. Como podemos proteger-nos? É mais ou menos fácil mas não necessariamente prático. Basta envolver a nossa carteira em papel de alumínio ou então comprar umas carteiras especiais com aspecto mais ou menos normal à venda online.

E atenção que os verdadeiros profissionais já não roubam para consumo próprio. Uma vez obtida toda a informação que permite, por exemplo, utilizar em pleno os nossos cartões de crédito, ela é disponibilizada na internet. E claro, os que acharem que isto não é verdade, pesquisem no google a expressão “fresh cc”. Esta é essa a palavra código que permite comprar na web a informação mais fresquinha… “fresh cc” quer exactamente dizer “cartão de crédito fresquinho”.

“Como se rouba na rua sem qualquer contacto”

Meias para o Japão

Luis de Matos - Thursday, March 24, 2011 - Comments (0)

No passado dia 11 de Março, o terramoto de 8.9 graus de magnitude ocorrido na costa nordeste do Japão viria a desencadear uma tragédia sem precedentes. A seguir veio o tsunami e pouco depois os riscos de uma catástrofe nuclear cujo final continua imprevisível. As contas continuam incompletas e ainda por apurar está o números de mortos, feridos ou desaparecidos. Milhões de vidas continuam afectadas pela falta de água, electricidade e transportes.

Os Japoneses são especiais. Todos acompanhámos as imagens que rapidamente se propagaram na internet e que vezes sem conta foram repetidas nas televisões. Depois de impressionados pelo comportamento e força destruidora da natureza, ficou-nos o espanto face à calma de um povo que na escola primária aprende como reagir nestas circunstâncias. Mas muitas são as características que nos separam de uma cultura que até integra palavras quase iguais às nossas, como “obrigado” ou “pão”. O Japão é a terceira maior economia do mundo. Fará pouco sentido pensar em fazer donativos em dinheiro. Curiosamente, também não é isso que pedem.

Para os Japoneses, o respeito e a atenção ao detalhe ocupa um grande lugar na sua forma de viver a vida. Não ousam entregar ou receber um cartão de visita sem que o façam com as duas mãos e raramente os ouviremos pronunciar a palavra “não”. É por isso que é tão importante e eficaz que enviemos meias. Isso mesmo, pares de meias!

Bastou que numa entrevista de televisão uma vítima tivesse dito que tinha os pé gelados para que de imediato se criasse um movimento mundial de envio de meias. Milhares de Japoneses acabaram com os pés descalços depois de fugir à pressa. Na zona do desastre, à noite, nos abrigos, os pés ficam frios e húmidos. Em geral, as pessoas esquecem-se de “meias” em favor dos itens mais óbvios, como cobertores e casacos. Os relatos das vítimas ao receberem um par de meias novo são absolutas lições de humildade, respeito e gratidão. Para eles, cada par de meias simboliza o carinho de alguém distante. Alguém que pensou em alguém que precisava de uma palavra amiga, de um gesto simples.

O site “Socks for Japan” explica como devemos fazer. Tudo, sem esquecer o mais importante... uma mensagem pessoal. Às pessoas que se juntam a esta campanha é pedido que escrevam uma pequena mensagem. Para a maneira de ser do povo Japonês é a mensagem que lhes aquece o coração e lhes dá força para ultrapassar o momento que vivem. Não é preciso saber falar japonês... basta escrever em português e deixar que “google translate” faça o resto. Quando tudo já foi feito e nada mais há para inventar, eis senão quando alguém se lembra de algo que permite ajudar directamente e de maneira significativa, fazendo toda a diferença.

“Quando um simples par de meias pode fazer a diferença”

Viva a Revolução!

Luis de Matos - Thursday, March 17, 2011 - Comments (0)

Nem estrelas rock, nem partidos, nem clubes, nem mesmo a selecção nacional foram alguma vez capazes de ter uma força e uma eficácia tão mobilizadoras quanto aquela que tiveram os quatro jovens cuja iniciativa culminaria na revolução do passado dia 12 de Março. O dia em que o Facebook juntou o povo que através dele combinou encontrar-se na rua.

Entre a polícia que hesitou em dar os números e algumas estações de televisão que deram a notícia como se de um fait divers se tratasse, o que é certo é que todos, mesmo os que acreditávamos desde o início, acabámos por nos surpreender e emocionar. O João, a Paula, o António e o Alexandre, quatro discretos e geniais ex-estudantes de Coimbra, fizeram com que mais de trezentas mil pessoas viessem à rua dizer “basta”.

Excepção feita a pequenas colagens que acabaram por ser marginais, a manifestação foi exemplarmente laica e apartidária, transgeracional e multi-cultural. Em doze cidades, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal, uniram-se dando força a um protesto colectivo. Um protesto que uniu as várias gerações que estão, de facto, à rasca.

Na minha opinião existem dois problemas. O primeiro é que Portugal está tão endividado que os investidores internacionais só nos emprestam dinheiro a taxas muito altas. O segundo é que não se pode evoluir se a produção de riqueza continuar sistematicamente a servir para alimentar um, demasiado grande, grupo de privilegiados. O segundo problema é maior que o primeiro. A solução do primeiro só surgirá depois de internamente resolvermos o segundo. As metáforas são simples e podem ser feitas com base num pequeno agregado familiar ou uma qualquer pequena ou média empresa. O primeiro problema assemelha-se aos juros que os bancos nos cobram quando mais precisamos. O segundo é semelhante ao de alguém que gasta os seus recursos no supérfluo e depois se queixa que não tem dinheiro para o essencial. O problema é que há muito estamos a ser geridos por carreiristas, quase carteiristas, que estão mais preocupados em ter sucesso na carreira do que fazer uma carreira de sucesso.

Um dia, alguém perguntará onde estava cada um de nós no dia 12 de Março. Enquanto não sabemos o que realmente mudou depois desse dia, prefiro simplesmente achar que depois de andarmos há anos a exaltar o centenário da República assistimos finalmente à sua celebração. A “coisa pública” fez-se ouvir. Viva a República!

“12 de Março foi o dia em que se celebrou o centenário da república.”

Taxa Audiovisual ?!...

Luis de Matos - Thursday, March 10, 2011 - Comments (0)

Os contribuintes, nós, contribuem para o funcionamento do estado. O estado, através do seu orçamento geral, divide as verbas recolhidas e financia as mais diversas áreas. Da saúde à educação, das obras públicas à administração interna, e tudo mais que em cada ano se inscreve no famoso orçamento geral do estado. Até aqui tudo bem. Mas qual seria a nossa reacção se víssemos discriminada de forma autónoma na factura da EDP uma parcela adicional para cada uma dessas alíneas do OGE?! O cenário é tão caricato quanto clamorosa seria a resposta. Então por que razão devemos nós pagar uma taxa audiovisual?!...

As empresas distribuidoras de electricidade, como a EDP, cobram a “Taxa audiovisual”, um valor que ultrapassa os quarenta euros anuais. O produto da contribuição é consignado à RTP, SGPS, com base, teoricamente, em dois pressupostos: fazer serviço público e não ter publicidade em antena. Porém, nem uma nem outra coisa são verdade. E nós continuamos a pagar…

Apenas 20% dos portugueses vêem habitualmente televisão. Desse universo, menos de um quarto escolhe a RTP para passar o seu tempo frente ao televisor. Contas feitas, grosso modo, isso significa que cerca de 10 milhões de pessoas pagam para que 480 mil vejam a RTP. Algo está errado e ninguém parece dizer nada…

Sou dos que defendem que a RTP deveria ser a grande referência em matéria de conteúdos de televisão. A RTP deveria deixar de tentar fazer a televisão que as pessoas vêem por inércia para fazer a que deveríamos ver, deixando de tentar copiar e competir com as privadas. Que serviço público é o da RTP quando toda a programação se resume a uma espécie de grande “Praça da Alegria” que passa a todas as horas, todos os dias? Um único formato que apenas se interrompe com concursos dos anos 90 e telenovelas de segunda escolha.

Não tendo a programação da RTP características que a destaquem em matéria de serviço público, por que razão não se aplica o princípio do utilizador pagador? Quem quer ver paga, como poucos querem ver, poucos pagaríamos. A oferta televisiva em Portugal é de tal forma diversificada por acção de canais e fornecedores privados que a RTP, ou pelo menos esta RTP, não mais constitui uma necessidade. E a grande maioria dos portugueses que contrata serviços como Meo, Zon, Cabovisão e outros? Por que razão temos que pagar uma taxa à parte para um dos poucos canais que não vemos?

Das duas uma, ou faz serviço público e o estado sustenta a empresa, ou continua a não fazer serviço público e terá que sobreviver com as receitas da publicidade. Mas, em nunhum dos casos, há qualquer justificação, ou cabimento filosófico, para que paguemos algo tão absurdo como uma taxa audiovisual. A RTP funciona com uma total lógica de empresa privada, totalmente financiada pelo estado, com a possibilidade acrescida de nos inundar com publicidade e, como se isso não bastasse, usa privados para nos cobrar mais uns milhões só porque temos electricidade em casa.

“O discreto e silencioso imposto mistério”

Pitucos Family

Luis de Matos - Thursday, March 03, 2011 - Comments (0)

Uma ideia que se exporta quase em silêncio. Neste caso, de Coimbra para o mundo, com encontro em Zaragoza, no salão das manualidades, lavores e belas artes, a “CREATIVA Zaragoza”. A ideia e a arte são de Vanessa Viana, licenciada pela ARCA, de Coimbra, e designer gráfica profissional. O conceito chama-se “Pitucos Family” e, diz a etiqueta, são bonecos de trapos com alma de madeira, feitos com muito amor e carinho. Cada “Pituco” é único no nome, aspecto e destino, formando uma família singular num mundo global.

Os “Pitucos” são verdadeiras obras de arte, únicos e com alma. Horas de talento, paciência e dedicação estão na origem de cada um. Depois vem o baptismo, todos eles têm nomes de origem portuguesa, nunca se repetem. O detalhe do conceito passa pela desigualdade das asas (são anjos na terra), pela ausência de lábios (para não partilharem os segredos), a singularidade das roupas (não há dois iguais), os cabelos de cores (num hino à pluralidade), os olhos de botões de assimetria evidente (uma metáfora de subjectividade).

A “CREATIVA” decorreu nos dias 25, 26 e 27 deste mês, no recinto da Feria de Zaragoza. Coimbra e Portugal, através da arte de Vanessa Viana, consquistaram o olhar e o coração dos visitantes. O salão, composto por cento e treze stands, foi visitado por mais de quinze mil pessoas. Estiveram representados seis países: Espanha, França, Bélgica, Inglaterra, Itália e, claro, Portugal. Apesar de se vir realizando ao longo dos anos em várias cidades de países como Bélgica, Itália, França e Espanha, esta foi a primeira edição a acontecer em Zaragoza. Uma feira notável repartida por seis zonas temáticas: Arte do Fio, Manualidades, Belas Artes, Decoração Floral, Cozina Creativa, e Infantil.

E porque vale a pena partilhar esta ideia? Não só porque é boa e original, mas, sobretudo, porque reafirma que não está tudo inventado. Faz-nos voltar a ter que admitir que, com talento e perseverança, há sempre espaço para o empreendedorismo. E não, Portugal não está condenado a exportar só vinho e cortiça. Em Zaragoza, exportou-se craftdesign. Portugal pode e deve exportar talento, visão e atitude. Talvez por pensar desta forma me tenha sentido tão orgulhoso, e com um permanente sorriso nos lábios, enquanto visitei a “CREATIVA Zaragoza”. Força, Portugal! Força, Vanessa! Força, Pitucos Familly!!!

E, claro, todos aqueles que ficaram curiosos para conhecer os ditos “Pitucos”, já sabem qual o sistema… basta seguir o código…

“Bonecos de trapos, com alma de madeira”

Vedores contemporâneos, perigosos e inocentes

Luis de Matos - Thursday, February 24, 2011 - Comments (23)

Todos nos recordamos do tempo em que ninguém ousaria fazer um poço ou um furo hertziano sem que um vedor nos assegurasse que ali existia água. Apesar de vivermos no tempo em que a ciência já se encarregou de explicar que nenhum desses senhores tinha qualquer tipo de poder e que tudo não passava de uma grande fita, eis senão quando um novo mito surge. Porém, desta vez, não é alimentado pela tradição e pelo folclore mas sim protegido pela autenticidade do suposto desenvolvimento tecnológico e da infalibilidade que a ele se associa.

Os vedores nunca fizeram mal a ninguém e sempre tiveram os seus seguidores na cultura popular. Afinal, onde quer que furemos sempre aparecerá água. A única dúvida é mesmo saber a que profundidade. Como não furamos em todos os sítios, nunca saberemos se ali era mesmo o melhor local. Mas, claro, que daí não vem mal ao mundo.

Aquilo de que vos falo esta semana prende-se com a “mesma ciência”, ou seja, nenhuma, mas agora aplicada aos departamentos de defesa de muitos países. Pois é, o senhor Jim McCormick inventou uns detectores de substâncias quase mágicos.  Chama-se ADE 651, tem um preço unitário de 32.000 euros, aproximadamente, e o governo iraquiano gastou 85 milhões de dólares nesta tecnologia. O seu inventor, que agora está finalmente preso, assegurava que, com este mecanismo seria possível detectar bombas a quase um quilómetro de distância. Afirmava publicamente que o princípio se assemelha ao utilizado pelos vedores. O pior de tudo é que dizia isto sem se rir e ficando indiferente às centenas de vidas que inevitavelmente viriam a perder-se sob a suposta eficácia do ADE 651.

Ele não foi o primeiro a ter esta tão “brilhante” quanto saloia e perversa ideia. Tudo começou em meados dos anos 90 quando começaram a aparecer dezenas de mecanismos que afirmavam poder detectar bombas em viaturas. São todos muito parecidos. Um bocado de plástico moldado para se assemelhar a algo mais tecnológico e, na extremidade, uma simples antena de auto-rádio que “pivota” livremente num eixo.

O kit vendido aos milhares para dezenas de países pelo Sr. McCormick, inclui uma série de cartões que, uma vez introduzidos no suposto leitor que integra o detector de bombas, podem servir para fins tão distintos como localizar droga, bombas ou elefantes. Face à total ineficácia do mecanismo, as suspeitas começaram a surgir. As mortes continuavam e o governo iraquiano perguntava-se como era possível que tantas bombas passassem através da apertada malha de detectors de bombas ADE651…

O suposto leitor de cartões foi finalmente aberto e demonstrou tratar-se de uma simples caixa de plástico… vazia! O Sr. Jim McCormick está preso mas muitos outros de iguais motivações andam por aí. Perto de nós, talvez. É preciso estar alerta. É preciso estar atento.

“Engano, lucro e morte, disfarçados de desenvolvimento tecnológico”

Solidariedade de Portugal para o Mundo

Luis de Matos - Thursday, February 17, 2011 - Comments (6)

Aquando da catástrofe que assolou o Haiti, Luis Figueiredo e alguns amigos fundaram a “Forever Kids”, uma associação humanitária com vontade de actuar e fazer a diferença. Juntaram toneladas de donativos e levaram-nos ao Haiti. Por cá, salvaram uma comunidade de imigrantes clandestinos e não querem parar por aí.

Revoltado com a indiferença de muitos, querem ser uma espécie de clube de solidariedade internacional. O impulsionador da “Forever Kids” viu na televisão uma reportagem sobre mais uma comunidade de clandestinos que chegaram a Portugal à procura de um sonho. Durante 2 meses, nas traseiras de uma antiga fábrica de bolachas em Almada, 30 cidadãos romenos e búlgaros passaram fome e frio. Em três dias, a “Forever Kids” conseguiu fazer aquilo que entidades oficiais se recusaram sequer a ver.

Actualmente estão a desenvolver uma campanha com vista à construção de uma escola no Haiti. Um tijolo custa apenas 17 cêntimos. Com 10 euros compram-se 60 tijolos dos 2100 necessários para fazer uma sala de aulas. O desastre do Haiti há muito deixou os telejornais mas, um ano depois, milhares de crianças estão sem escola e a viver em condições desumanas. Não, nós não podemos permanecer indiferentes.

Muitos dirão que por cá também há muito a fazer e é verdade. Este espaço destinha-se a partilhar “ideias dos outros”. Ideias que, a todos os níveis, se destacam pela sua singularidade. Basicamente, a ideia principal é a de que, se de facto quisermos, podemos sempre fazer a diferença. A diferença entre o conformismo e a acção. No fundo, a diferença na absoluta indiferença.

Nunca é tarde. Em França, o senhor Stéphane Hessel acaba de abanar o país com um ensaio intitulado “Indignez-vous!”. Um convite encorajador a que nos indignemos. Já vendeu 600.000 cópias e pode ser encontrado em várias línguas na internet. E sim, nunca é tarde. O autor, o senhor Hessel tem 93 anos de idade.

O Luis Figueiredo indignou-se e conseguiu mudar vidas. Estou certo de que tão importante como a consequência objectiva da sua acção será a forma como cada um de nós poderá rever-se na sua atitude e iniciativa. Estamos a viver uma crise profunda. Não, não me refiro à económica. Não podemos ficar indiferentes. Por que não pensar em tudo aquilo que poderíamos mudar à nossa volta, bem perto de nós?…

No meio de uma profunda crise de valores e de princípios, a “Forever Kids” deu um notável exemplo. E nós, o que podemos fazer?

“Alguns dos que ainda se indignam com o inaceitável”

Micro crédito que faz a diferença

Luis de Matos - Thursday, February 10, 2011 - Comments (0)

O conceito assenta em pequenos empréstimos concedidos a empreendedores que, ao serem tão pobres, não têm acesso ao crédito tradicional. São comuns as histórias de êxito em que indivíduos sem quaisquer recursos, mas com boas ideias e capacidade de trabalho, acabaram por salvar famílias e comunidades, contribuindo para o desenvolvimento dos chamados países do terceiro mundo. Em 2005 surge uma entidade que, sem fins lucrativos, vem permitir a todos e a cada um de nós, participar activamente na irradicação do flagelo que é a probreza nalgumas regiões do mundo.

Kiva.org é uma organização através da qual podemos apoiar e monitorizar o trabalho de pessoas específicas que precisam de pequenas quantias de dinheiro para criar ou melhorar os seus negócios. Uma ideia original que mistura o conceito de micro financiamento com o poder das redes sociais. O resultado é uma inteligente, reconfortante e eficaz forma de fazermos parte de uma verdadeiro empreendedorismo social.

Basta registarmo-nos no site kiva.org e seleccionar um empreendedor. O investimento pode ser de 25 dólares (20€, aproximadamente). Uma vez reunido o montante necessário para o projecto em causa, a organização fará chegar esse dinheiro ao empreendedor. Durante os meses seguintes poderá monitorizar o projecto e, quase de imediato, começará a devolução do investimento. À medida que for recuperando o montante investido, poderá decidir ficar com ele ou reinvestir noutro projecto. Em qualquer dos casos, há algo que não esquecerá… acaba de ajudar a mudar a vida de alguém que, com vontade, trabalho e talento, interfere positivamente numa das muitas zonas pobres do mundo.

Até hoje, através da Kiva.org, já foram realizados empréstimos num montante global de quase 200 milhões de dólares. O número de pessoas que já deram o seu contributo é superior ao meio milhão e o de empreendedores ajudados quase chega a esse valor. E, atenção, o dinheiro não se perde. A percentagem de projectos que correm bem e cujo investimento é restituído, a todos os que acreditamos, é de 98,92%!

Trata-se de verdadeiro activismo online, feito de forma segura, inteligente e pedagógica. Por vezes aplaudimos o trabalho filantrópico de alguns notáveis mas percebemos não ter recursos para uma atitude idêntica. Através desta original organização, e com cerca de 20 euros, podemos investir em alguém e ter o prazer de ajudar a mudar um pedaço de mundo.

Para um empreendedor de um país pobre poder adquirir uma máquina de costura ou um frigorífico, pode significar duplicar o seu rendimento ou até empregar um familiar. É aí que “muitos a emprestar pouco” pode fazer a diferença. 

 “Uma ideia original que mistura o conceito de micro financiamento com o poder das redes sociais, resultando numa inteligente e eficaz forma de activismo social.”

Uma garrafa que salva vidas

Luis de Matos - Thursday, February 03, 2011 - Comments (0)

Gestos tão simples como beber um copo de água saída directamente da torneira de nossas casas é algo que nos habituámos a não valorizar convenientemente. Neste momento, há quem tenha que escolher entre beber água contaminada ou morrer. Três biliões e meio de pessoas sofrem, diariamente, as consequências de não ter acesso a água potável. Dois milhões de crianças morrem anualmente pela mesma razão.

A promessa que fiz no número zero foi a de aqui trazer “ideias dos outros” que merecem ser partilhadas. Hoje falo-vos de algo chamado “Lifesaver Bottle”. Um ovo de Colombo que pode mesmo mudar o mundo, ou, pelo menos, salvar milhões de vidas. Não me refiro unicamente às regiões do globo onde as águas contaminadas são um flagelo mas, também, à forma como reagimos na ajuda às populações afectadas por tsunamis e tremores de terra ou que vivem no epicentro de cenários de guerra.

Tradicionalmente, em situações de catástrofe, a ajuda humanitária envia água para as zonas afectadas. Para facilitar a distribuição, dezenas de milhares de vítimas são reunidas num único local. Quase sempre o problema do fornecimento de água localmente tem a ver com o facto de ela não ser potável e não com o facto de não existir. Ao longo da história do mundo as comunidades foram-se fixando junto a fontes naturais de água. É apenas necessário que a tornemos potável. A “garrafa que salva vidas” é um dispositivo que permite que as vítimas possam permanecer nas áreas afectadas e, aí mesmo, possam transformar em potável a mais consporcada das águas, mesmo aquelas em que flutuam destroços, terra ou corpos.

Antes da invenção da “Lifesaver Bottle”, os filtros de água conhecidos eram formados por microporos de 200 nanómetros de diâmetro (200 milionésimos de milímetro), tamanho idêntico ao de algumas bactérias. Vírus, por outro lado, podem medir 25 nanómetros! Na prática, bactérias e vírus passavam livremente pelas malhas desses filtros. Os poros presentes no filtro da “Lifesaver Bottle” têm 15 nanómetros de diâmetro… nada passa!

Se a água, qualquer que seja, for purificada no ponto em que é utilizada poupamos em tempo e dinheiro, para além de resolvermos o problema de forma sustentada. Sim, porque depois de bebida a água da ajuda humanitária o problema continua. Um “Lifesaver Jerrycan” é capaz de filtrar 25.000 litros de água, quantidade suficiente para um agregado familiar de quatro pessoas durante 3 anos, e custa aproximadamente 320 €. Uma garrafa custa cerca de 140 € e serve para filtrar até 6.000 litros de água. No final da sua vida útil, a garrafa bloqueia e basta comprar um filtro novo, cujo custo é inferior a 6 €, e que filtrará mais 6.000 de água suja. 

Michael Prichard inventa a “Lifesaver Bottle”, um dispositivo portátil de purificação de água, ao ver as notícias do Tsunami na Indonésia e do furacão Katrina nos Estados Unidos.