2054 antecipado

Luis de Matos - Thursday, August 25, 2011 - Comentários (1)

Sempre se especulou se seríamos melhores pessoas se agíssemos sempre como se estivéssemos a ser observados. Já não é uma suposição ou sequer uma longínqua ameaça. Está a acontecer! Estamos mesmo constantemente a ser observados. O reconhecimento facial enquanto tecnologia está hoje ao alcance de todos nós. Está, por isso, na hora de actualizarmos o nosso conceito de privacidade num mundo de realidade aumentada.

Desde o início da década de sessenta que se fala em reconhecimento facial feito por computadores. Nos dias de hoje o desempenho das máquinas ainda fica aquém da capacidade dos seres humanos no que toca ao reconhecimento de rostos. Mas não teremos que esperar até 2054 para ver o “Minority Report” de Steven Spielberg tornado realidade. Há pouco mais de 15 anos, antes dos motores de busca, nunca suspeitaríamos poder vir a fazer uma pesquisa de texto, à escala global, em escassos milésimos de segundo. Hoje em dia, já podemos fotografar alguém na rua e descobrir tudo sobre esse alguém através das características únicas da sua cara.

O reconhecimento facial automático já é actualmente utilizado em aplicações reais, especialmente em vigilância e segurança, e, mais recentemente, na Web 2.0, ou mais concretamente na forma como os usuários vêm e interagem com a internet. As regras do jogo mudaram a partir do momento em que a Google, através do Picasa, a Apple, através do iPhoto e o Facebook, via Face.com, colocaram essa possibilidade ao alcance dos dedos do mais comum dos utilizadores.

A convergência das tecnologias e o crescente hábito de partilharmos a nossa vida nas redes sociais são factores chave nesta corrida em que o “presente” tenta ultrapassar o “futuro”. Em 2010, 2.5 biliões de fotografias foram partilhadas por usuários no Facebook… em cada um dos doze meses desse ano!

Sendo a face de cada um de nós a mais fiel ponte entre a nossa identidade online e offline, é agora possível relacionar as duas em matéria de segundos. O nosso rosto, na rua ou online, pode agora ser ligado a todo o tipo de dados a nosso respeito. A fusão entre esses dois mundos, com grande ajuda dos universos paralelos Facebook, Linkedin, Google+ e outros, permite, de forma absolutamente democrática, termos acesso ao que poderíamos chamar “Real ID” e que sumariza quem somos, o que temos, o que sentimos, o que pensamos, o que vivemos e, inclusivamente, onde nos encontramos em cada momento.

No “Minority Report” de uma suposta realidade de 2054, tecnologia semelhante era usada para prevenir o crime. Contudo é no consumismo que as novas funcionalidades provam ter grande potencial… Imagine marcas e produtos que podem escolher quem abordam em função dos seus perfis? Já imaginou um mundo onde um estranho na rua pode adivinhar o seu nome, interesses, histórico bancário, património e condição de saúde? É por essas e por outras que, nos próximos anos de “realidade aumentada”, em que os dados online e offline são misturados em tempo real, seremos forçados a reconsiderar a nossa noção de privacidade.

“Realidade aumentada, privacidade reduzida…”

Comentários (1)
Helena Silva commented on 27-Oct-2011 11:55 AM
Caro Luís Acha que todos os factos que mencionou são uma coisa má? Ou talvez, o Futuro possa ser mais sorridente e transparente se todos tivermos a possibilidade de conhecer melhor o nosso semelhante? P.S.: Muitos Parabéns pela sua carreira. É notável
e inspiradora! Helena

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