Chocolate

Luis de Matos - Thursday, May 10, 2012 - Comentários (0)

Negro, de leite ou branco, puro ou misturado, em barra, líquido ou mousse, quase todos gostamos de chocolate. À semelhança daqueles que julgam que os frangos surgem na natureza já embalados em covetes de esferovite e protegidos com película transparente, a grande maioria dos consumidores de chocolate não faz a mais pequena ideia de tudo aquilo que teve que acontecer para que o prazer do chocolate pudesse chegar a ser sentido. Em pleno século XXI, poucas pessoas têm consciência das grandes diferenças que separam as crianças que apanham o cacau daquelas que experimentam o produto transformado.

Anualmente, a “Federation of Cocoa Commerce” reúne em Londres, por um dia, cerca de mil pessoas que representam todos os sectores e vertentes envolvidas no negócio do cacau, da colheita à distribuição, passando por todos os produtos que nele se baseiam. Líderes de todo o mundo reúnem-se para discutir o futuro do negócio. Tudo aconteceu no passado dia 4 de Maio, em Londres, no magnífico hotel “Grosvenor House”. Estive por lá e descobri um mundo surpreendente. Ter a noção de todos as fases e procedimentos faz-nos saborear de outra forma um “simples chocolate”. O cultivo, a colheita, a fermentação, a secagem, a limpeza, e tantas outras longas e meticulosas fases pelas quais o cacau passa até à transformação final, e consequente chegada às prateleiras, é, de facto, algo que merece um enorme respeito e admiração.

O cultivo do cacau remonta há mais de três mil anos. Hoje discute-se o aumento de produtividade, a melhoria da qualidade e a urgente necessidade de implementação de um modelo de exploração que assente na sustentabilidade, como forma única de assegurar a continuidade da produção de cacau. Os três pilares da desejada sustentabilidade assentam fundamentalmente em três vertentes: económica, social e ambiental. Em termos económicos procura-se uma mais justa divisão de valor entre todos os intervenientes. Note-se que o cultivo e produção de cacau assenta, ainda, em grande parte, em trabalho infantil e de mulheres. É importante aumentar a qualidade das explorações e encontrar formas de pré-financiamento. Ao nível social luta-se pela igualdade de oportunidades, investe-se no desenvolvimento rural e começa a investir-se fortemente na educação e saúde das comunidades produtoras. Finalmente, em termos ambientais, é agora dada maior atenção à conservação das florestas e à biodiversidade.

A Federação do Comércio de Cacau promoveu, assim, e uma vez mais, a partilha de conhecimentos ao mais alto nível. No final do dia, todos os participantes se reúnem num jantar de gala onde celebram o cacau e prometem tudo fazer por um futuro melhor para a indústria que, de alguma forma, a todos nos toca. No meu caso concreto, senti esse dia de uma forma especial. Por um lado, tive o privilégio de escrever e protagonizar o espectáculo de encerramento, intitulado “The Magic of Cocoa”, ao lado dos míticos “Rat Pack” que foram responsáveis pelo baile noite dentro. Por outro, trouxe comigo especial alegria patriótica... Poucos saberão que até à passada sexta-feira a Federação era chefiada pela portuguesa Filipa Secretin. Um orgulho para o país e um exemplo de que, no mundo global em que hoje vivemos, não há fronteiras para a excelência.

“Três mil anos depois, a indústria do cacau continua a ser reinventada...”

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