Geotracking no iPhone

Luis de Matos - Thursday, April 28, 2011 - Comentários (0)

Dois jovens talentos das ciências da tecnologia descobriram que o sistema operativo IOS4 da Apple, presente em dispositivos como o iPhone, arquiva um registo detalhado de dados geográficos dos seus utilizadores. Pergunto eu, qual é o problema? Quem não deve não teme. Acho mesmo que até pode ser útil.

Para um cidadão inocente que se veja indiciado numa qualquer ilegalidade, esta informação pode até revelar-se de importância extrema, podendo dessa forma provar onde se encontrava num certo dia a uma determinada hora. Mas esse mesmo ficheiro permite também conhecer rotinas privadas. É aqui que os puristas da privacidade se exaltam e nós devemos reflectir. Se alguém nos roubar o telemóvel, ou a ele aceder por via informática, pode então reconstruir a nossa vida recente, conhecer os nossos hábitos e saber, com rigor aterrorizador, onde trabalhamos, tomamos café ou vivemos.

Isso é mau. Mas será que, de facto, estamos genuinamente preocupados com a nossa privacidade? Sinceramente acho que não. Há meia dúzia de anos, na internet, todos usávamos nomes falsos. Foi a era dos nicknames. Hoje usamos nomes completos e actualizamos diariamente as fotografias que nos identificam nas redes sociais. Quase sempre sem perceber que tudo o que na internet se coloca não só deixa de ser legalmente nosso, como acontece no Facebook e demais redes sociais, como pode mesmo contribuir para que hipotequemos não só a nossa liberdade mas até mesmo o nosso futuro.

Vejo com alguma estranheza pais que colocam fotografias dos seus bebés no Facebook e jovens que publicam orgulhosamente fotos das suas bebedeiras. A tão falada “pegada digital” é indelével mas poucos têm disso consciência. O que esperam os utilizadores das redes sociais? Colorir o album fotográfico de tarados e pedófilos? Hipotecar as eventuais futuras entrevistas de emprego? Permitir que patrões e colegas de trabalho percebam que estão sempre no chat e nas redes sociais quando deviam estar concentrados a trabalhar?

Sou um activo utilizador do Facebook e do Twitter. Acho que a internet é algo verdadeiramente maravilhoso. Defendo uma internet aberta, livre e surpreendente. Gosto de sentir que vivo numa aldeia global. É bom ter acesso à informação quando ela surge e não quando já foi adulterada e o prazo de validade se venceu. Porém, é preciso conhecer as ferramentas para bem as utilizar. Com um carro se transporta alguém às urgências de um hospital, mas com o mesmo carro se pode pôr fim à vida da pessoa que no dia anterior salvámos.

Como artista, e através da internet, comunico-me diariamente com cerca de cinquenta mil pessoas. É para mim, profissionalmente, uma ferramenta inestimável. Há quinze anos colava cartazes a anunciar os meus espectáculos. Hoje, a partir do meu telemóvel, posso anunciar que dentro de cinco minutos vou aparecer na televisão. É, de facto, extraordinário. Mas, tal como no passado eu não ia pelas ruas com um megafone a anunciar a minha vida privada, também hoje não uso as redes sociais para partilhar com desconhecidos informações tão privadas para mim quanto irrelevantes para os outros. As redes socias não são um confessionário, são um jornal de parede a que o mundo tem acesso e cujo conteúdo os seus verdadeiros donos passam a legalmente possuir.

Imaginem um café de aldeia onde tudo se diz e comenta... As redes socias são mais ou menos isso à escala global. A única diferença é que fica tudo gravado e toda a gente pode ouvir, vezes sem conta, para sempre!

 “Os detectives privados deixaram de ter razão de existir.”

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