Milagre! ou talvez não…

Luis de Matos - Thursday, May 19, 2011 - Comentários (0)

A capacidade humana de relacionar factos isolados, e a partir deles criar as mais extraordinárias fantasias é, de facto, ilimitada. Todos já experimentámos tal prática no nosso dia a dia. É por isso que algumas pessoas se acham possuidoras de uma energia especial quando, ao passarem por um poste público de iluminação, fazem, aparentemente, com que a sua lâmpada se acenda. Para elas é óbvio… o candeeiro estava apagado e no momento em que passaram a lâmpada acendeu-se. São dois factos sem qualquer relação entre si para além da coincidência do momento em que ocorrem que, alias, até é bastante vulgar.

É esse poder de relacionarmos factos por forma a que alimentem as nossas próprias convicções que, uma vez mais, fez furor na comunicação social. Vejamos, pois, como dois factos reais e inquestionáveis são relacionados dando azo a relatos tão criativos e misteriosos. Não esquecendo, ainda, o factor catalizador extra…

FACTO 1: No passado dia treze de Maio, por volta das doze horas e trinta minutos, formou-se uma auréola à volta do Sol. Essa auréola é conhecida como “halo” e trata-se de fenómeno óptico perfeitamente estudado e que acontece com grande frequência em dias de boa visibilidade. Consiste num anel luminoso centrado no Sol e provocado pela refracção da luz. Pode também acontecer durante a noite, em redor da lua, sendo então chamado um “halo lunar”.

FACTO 2: No passado dia treze de Maio, por volta das doze horas e trinta minutos, era exibido, no Santuário de Fátima, um filme sobre a relação do Papa João Paulo II com Nossa Senhora de Fátima. A recente beatificação do Papa João Paulo II, a sua devoção a Nossa Senhora de Fátima e ainda, toda a simbologia associada ao dia treze de Maio, faziam da multidão presente no santuário de Fátima um grupo particularmente predisposto ao maravilhoso e divino.

A forma como acabo de, individualmente, descrever os factos um e dois será, acredito, consensual para qualquer cidadão minimamente informado e de “boa fé”. Até aqui, estamos todos de acordo. A discórdia surge a partir do momento em que alguns de nós procuram relacionar os dois factos de maneira que suportem as mais singulares teorias do divino. Para mim, são somente isso... dois factos e nada mais.

Se entre os 2500 caracteres que em cada semana vos dedico, eu decidir escrever a palavra “morte” isso será um facto. É igualmente insquestionável, e por isso um facto, que em cada segundo das nossas vidas alguém morre num qualquer canto do mundo. Ora, se então relacionar os dois factos surgirá a seguinte certeza… “há uma pessoa que morre cada vez que escrevo a palavra morte no meu computador”. O que, no limite, não é uma inverdade.

Mas no dia treze, em Fátima, aconteceu algo que funcionou como excelente catalizador para o divino relacionamento dos factos um e dois… Os sacerdotes que presidiam e participavam nas cerimónias resolveram sacar os seus telemóveis dos bolsos e começaram a tirar fotografias ao céu. O que esperariam que a multidão de fiéis pensasse enquanto os seus mestres optavam por tirar fotografias ao sol em vez de ver o filme com atenção?

“Milagre é quando um homem quiser…”

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