Negócio da China

Luis de Matos - Thursday, April 07, 2011 - Comentários (0)

A ocasião faz o ladrão e as contingências estimulam o engenho. O oportunismo de uns e pressão social de outros, aliados à facilidade de em qualquer coisa acreditar, misturam-se naquilo que não é só um “negócio da china” mas que acontece, ainda hoje, na China.

Uma certa falha de inteligência social, faz com que cerca de um terço da população mundial seja aquilo a que a minha avó chamava “leves do crer”. Pessoas facilmente manipuláveis, de credulidade elevada, inseguras, e que em tudo crêem desde que lhes desvendem como vai ser o dia de amanhã. É por isso que todo o tipo de videntes, cartomantes, leitores de sina e vendedores de esperança sob a forma de banha da cobra sempre tiveram o seu negócio assegurado. Têm a capacidade de se reinventar ao longo dos tempos, numa constante criação de novas formas de vender a solução de todos os problemas.

O desequilíbrio de género é um problema antigo na China. O infanticídio e abandono de meninas foi uma realidade comum até à fundação da República Popular em 1949. O povo chinês tem mantido a ideia de que os meninos são melhores do que as meninas, devido à sua posição dominante na família e na sociedade. Embora as leis e regulamentos chineses tentem induzir o tratamento igual a ambos os sexos, na prática, os direitos das mulheres muitas vezes não são garantidos em áreas como educação, emprego, promoção e herança.

O aborto selectivo e o infanticídio feminino foram culturalmente encorajados pela baixo valor das mulheres na sociedade. Muitas são abandonadas face ao suposto fracasso de gerar um filho do sexo masculino. E é aqui que nasce o negócio de que vos falo. Um negócio tão ridículo quanto perverso e real.

Aparentemente, os casais que pretendam ter um filho podem ter à sua disposição um sistema infalível e grátis. São comuns os consultórios de vão de escada que oferecem aos seus clientes uns frasquinhos com uma espécie de poção mágica. Há dois tipos, um para induzir o nascimento de meninos e outro, de meninas. Não que o segundo caso tenha muita procura mas assim se proporciona uma oferta plural.

Na consulta, o casal exprime o seu desejo quanto ao sexo da descendência e, logo de seguida, o mestre lhes oferece um frasquinho condizente com o seu manifesto. A futura mãe deverá, durante os meses de gestação, misturar no seu pequeno almoço uma gotinha da poção oferecida. Quanto custa? Nada. O mestre apenas planta no subconsciente dos seus clientes a ideia de que se a coisa correr bem então poderão dar o que quiserem.

Não é preciso fazer grandes cálculos para perceber que o remédio tende a ter sucesso em cinquenta por cento dos casos. Consequentente, e a troco de uma qualquer água de rosas, o mestre acaba por vir a ser faustosamente compensado.

Talvez porque ninguém se orgulhe de partilhar uma história de fracasso, todas os casos conhecidos são de sucesso absoluto…

“Frasquinhos de esperança sob a forma de certeza”

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