Prazo de Validade

Luis de Matos - Thursday, June 02, 2011 - Comentários (0)

Inúmeros sites de internet garantem poder dizer-nos, com base num conjunto de dados e perguntas mais ou menos patéticas, até quando cada um de nós irá viver. Uns fazem o teste por piada ou curiosidade, outros evitam-no pela ausência desses mesmos motivos.

Uma empresa espanhola chamada “Life Length” acaba de mudar as regras do jogo criando um teste que, alegadamente, desvenda a longevidade de cada um de nós. Por aproximadamente quinhentos euros, o teste garante medir com precisão o comprimento dos telómeros cuja acção se julga ligada à longevidade. Segundo explicam, os telómeros são estruturas que formam as extremidades dos cromossomas e cuja principal função é manter a estabilidade dos mesmos, protegendo-os da degradação ao longo da vida. O teste tem feito as manchetes de jornais do mundo inteiro e está já disponível em inúmeros países. Mas não é do teste que vos quero falar…

Costumo dizer que o mundo seria melhor se tivéssemos algumas conversas e atitudes pensando que talvez pudessem ser as nossas últimas manifestações. Acredito mesmo que isso nos conferiria uma tolerância acrescida e um melhor usufruto do tempo que cá passamos e da memória que guardarão de nós. Mas quais seriam as implicações se pudéssemos saber se vamos viver até aos trinta ou até aos noventa anos?

Fazer batota com a vida, conhecendo antecipadamente o seu terminus, ou mesmo pistas acerca da longevidade, e definir os nossos passos como quem gere uma agenda, teria consequências difíceis de imaginar. A discussão começa a ser a propósito de deverem ser ou não, os testes genéticos oferecidos ao público e quais seriam as implicações éticas, se os resultados fossem utilizados por, por exemplo, empregadores ou outros responsáveis.

Se soubéssemos hoje até que idade vamos viver o que mudaria nas nossas decisões? Casaríamos? Será que comprávamos carro e casa? Decidiríamos ter filhos mesmo sabendo que não estaríamos cá para os educar? Será que os bancos nos emprestariam dinheiro a trinta anos? E os seguros de vida, com que pressupostos e taxas os fariam as companhias de seguros? E quanto a descontarmos de bom grado para a segurança social, sabendo que não chegaríamos à idade da reforma? Que faríamos hoje se soubéssemos que vamos morrer amanhã?

Contra o colapso do maravilhoso prazer da vida continuemos, pois, a viver e agir no pressuposto de que amanhã cá continuaremos para lidar com as consequências das nossas decisões. Esse é o lado mais belo do inigualável privilégio de estarmos vivos.

“O que mudaria se soubéssemos quando morremos?”

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