Representatividade

Luis de Matos - Thursday, October 18, 2012 - Comentários (99291)

A verdadeira crise não está na nossa dívida externa ou na austeridade interna, mas sim na representatividade do povo nesta democracia de fachada que apenas serve para alimentar as máquinas partidárias, os políticos de carreira e os amigos a quem se proporcionam empregos de sonho onde pouco ou nada se faz e muito se ganha. Essa crise não se resolverá com falinhas mansas ou consertação social.

Mas em que se consubstancia essa falta de representatividade? Muito fácil. Está retratada no exagerado número de cadeiras da Assembleia da República, na forma como se distribuem e, ainda, no tipo de pessoas que as ocupam. Nas últimas eleições legislativas a abstenção ultrapassou os 40%. Poderíamos especular a propósito das reais causas dessa abstenção mas a todos nós são familiares expressões como “ir lá para quê? são todos iguais!”.

Na Assembleia da República existem 230 cadeiras para ocupar por representantes do povo, os chamados “deputados”. Ora, se 40% do povo não confia nas opções que se lhes colocam, não lhe parecendo essas pessoas as mais indicadas para os representar, não deveriam ficar 92 cadeiras vazias, sendo apenas 138 ocupadas? Esquecemo-nos que, quando um partido ou coligação detém 50% dos votos expressos, isso significa, na prática, feitas as contas que, cerca de 30% dos cidadãos eleitores acham que eles são bons para governar o país. O problema da representatividade começa aqui. Mas há mais, sou amigo pessoal de alguns deputados de vários partidos. Em privado, todos dizem que, na verdade, não fazem muito na Assembleia da República uma vez que se limitam a seguir instruções de quem lhes arranjou o emprego. Os presidentes dos grupos parlamentares dos partidos com assento na Assembleia da República usam os deputados como quem usa soldados a pé nas frentes de combate. O que conta é o número, não as suas ideias, visão ou competência. Tudo isto, claro, salvo raras excepções que de imediato são notícia na comunicação social e que, mais cedo ou mais tarde, acabam por ser afastados.

É sabido que seria fácil encher páginas e páginas de jornais apenas com comentários infelizes de figuras públicas dos mais diferentes quadrantes. Até aí nada de novo. Porém, quando as figuras públicas são deputados, políticos e demais personalidades cujo rendimento depende do dinheiro que os portugueses pagam em impostos, a coisa já deveria ser mais grave. Mas não há ninguém que lhes explique que têm que ter tininho na língua? Num dia temos um Presidente da República que afronta os portugueses dizendo que até vive com dificuldade, uns dias depois é o Presidente do grupo parlamentar do PS que diz que andar de Renault Clio seria uma vergonha. E se fossem gozar com a família deles?

A actual classe política envergonha qualquer cidadão. Um pai não pode dizer a um filho que este não pode comer chocolate quando tem os dentes sujos do mesmo. É preciso dar o exemplo. O povo está a ficar cansado de ser gozado. Como é possível que o Presidente da República não repare que a bandeira nacional está ao contrário e depois, o mesmo estado que chefia, na semana seguinte, constitua arguido um artista plástico que utiliza a bandeira numa obra de arte, acusando-o de injúria a símbolo nacional?! Perdão? Dois pesos e duas medidas?

Não chega vir agora a descobrir-se que o BPN não foi criado nem por banqueiros nem por investidores mas terá sido fundado por políticos para "desviar" dinheiro do Estado? Não chega termos vindo a pagar milhões e milhões de euros, a empresas internacionais, por estudos e pareceres de que nada serviram? Não será demais acabar de contratar e assumir salários na ordem dos 300 mil euros por ano aos gestores da nova Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública? Senhores políticos, tenham cuidado porque o povo começa a descobrir-vos o truque…

“O povo começa a cansar-se de ser enganado…”

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