Vergonha

Luis de Matos - Thursday, January 19, 2012 - Comentários (1)

Muito se fala sempre que um novo governo faz ou manda fazer determinadas nomeações para certos cargos mais ou menos públicos. Não é surpresa para ninguém que essas escolhas sempre reflectem ligações partidárias ou compromissos mais ou menos evidentes anteriormente assumidos. Em todos os quadrantes políticos existem pessoas competentes, responsáveis, sérias e, algumas até, geniais. É expectável, ou pelo menos habitual, que cada governo escolha pessoas da sua confiança pessoal e política. Nada a dizer em relação a esta quase inevitabilidade.

Todos sabemos que a nossa opinião sobre determinada realidade é sempre altamente condicionada pela nossa relação com essa mesma realidade. Apregoamos sempre uma grande equidistância nos nossos juízos e até chegamos a, ingenuamente, acreditar que estamos a ser imparciais no nosso opinar. Contudo, a realidade é outra. Talvez por isso o povo diga que ninguém é bom juíz em causa própria. Vejamos, por exemplo, os dados de um inquérito realizado a médicos a propósito da alegada influência da indústria farmacêutica sobre as suas prescrições. Oitenta e quatro por cento afirmou que os seus colegas eram influenciados pelas prendas dos laboratórios. No entanto, no mesmo universo de inquiridos, apenas dezasseis por cento admitiu essa mesma influência. É uma questão de perspectiva.

Perspectiva, ou simples vergonha, talvez tenha sido aquilo que o Senhor Dr. Eduardo Catroga perdeu de vez. Há uns meses aparecia na televisão, com um certo sentido de estado e preocupação com o futuro de todos nós, a dizer coisas que o povo até entendia com alguma facilidade. Meio convencidos com os seus argumentos, os portugueses deram a vitória ao seu partido. O pagamento pelos serviços prestados não tardou em chegar. O Senhor Catroga vai agora receber um ordenado milionário e já anunciou que tudo fará para o poder acumular com a sua generosa reforma. Por ano irá receber 639.000 Euros. Mensalmente, este senhor vai levar para casa 45.000 Euros, mais outro tanto de subsídio de férias e de natal. Se conseguir, tudo isto somará aos quase 10.000 Euros que actualmente recebe de reforma.

Algumas vozes mais alheadas poderão simplesmente dizer: “sorte a dele”. O problema é que a oralidade, experiência e visão do Dr. Catroga se transformam em saloice anedótica quando o confrontam com a aberração da situação. Nos últimos dias, o referido senhor já disse coisas como não saber quanto vai ganhar na EDP ou, pior ainda, afirmar que até é bom para o país já que, fruto do seu vencimento elevado, vai pagar muitos impostos ao estado. Isto sim é não ter um pingo de vergonha.

Não tenho conhecimentos ou legitimidade para pôr em causa a sua experiência, competência técnica ou eventual valor estratégico.  Mas, claro, não consigo deixar de me interrogar a propósito das decisões que serão dele esperadas e de que genialidade tão rara será este senhor dotado para merecer ganhar dez vezes mais do que os presidentes das Câmaras de Lisboa ou do Porto? Mas, como o Dr. Catroga diria, este não é o local para discutir “pintelhos”.

Aquilo que é o cúmulo da vergonha é na prática, e apenas, a falta dela…


Comentários (1)
Helena Silva commented on 13-Mar-2012 04:00 PM
Qualquer dia, nós, os desempregados, vamos a uma entrevista e é a câmara de gás. E irão também os pensionistas, os inválidos, os deficientes e os dementes. É a selecção natural. Os Fracos desaparecem. Ficam cá, os Catrogas, os Sócrates e os Jardins...
os gestores, os assessores, os afilhados e afins

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