Representatividade

Luis de Matos - Thursday, October 18, 2012 - Comments (105466)

A verdadeira crise não está na nossa dívida externa ou na austeridade interna, mas sim na representatividade do povo nesta democracia de fachada que apenas serve para alimentar as máquinas partidárias, os políticos de carreira e os amigos a quem se proporcionam empregos de sonho onde pouco ou nada se faz e muito se ganha. Essa crise não se resolverá com falinhas mansas ou consertação social.

Mas em que se consubstancia essa falta de representatividade? Muito fácil. Está retratada no exagerado número de cadeiras da Assembleia da República, na forma como se distribuem e, ainda, no tipo de pessoas que as ocupam. Nas últimas eleições legislativas a abstenção ultrapassou os 40%. Poderíamos especular a propósito das reais causas dessa abstenção mas a todos nós são familiares expressões como “ir lá para quê? são todos iguais!”.

Na Assembleia da República existem 230 cadeiras para ocupar por representantes do povo, os chamados “deputados”. Ora, se 40% do povo não confia nas opções que se lhes colocam, não lhe parecendo essas pessoas as mais indicadas para os representar, não deveriam ficar 92 cadeiras vazias, sendo apenas 138 ocupadas? Esquecemo-nos que, quando um partido ou coligação detém 50% dos votos expressos, isso significa, na prática, feitas as contas que, cerca de 30% dos cidadãos eleitores acham que eles são bons para governar o país. O problema da representatividade começa aqui. Mas há mais, sou amigo pessoal de alguns deputados de vários partidos. Em privado, todos dizem que, na verdade, não fazem muito na Assembleia da República uma vez que se limitam a seguir instruções de quem lhes arranjou o emprego. Os presidentes dos grupos parlamentares dos partidos com assento na Assembleia da República usam os deputados como quem usa soldados a pé nas frentes de combate. O que conta é o número, não as suas ideias, visão ou competência. Tudo isto, claro, salvo raras excepções que de imediato são notícia na comunicação social e que, mais cedo ou mais tarde, acabam por ser afastados.

É sabido que seria fácil encher páginas e páginas de jornais apenas com comentários infelizes de figuras públicas dos mais diferentes quadrantes. Até aí nada de novo. Porém, quando as figuras públicas são deputados, políticos e demais personalidades cujo rendimento depende do dinheiro que os portugueses pagam em impostos, a coisa já deveria ser mais grave. Mas não há ninguém que lhes explique que têm que ter tininho na língua? Num dia temos um Presidente da República que afronta os portugueses dizendo que até vive com dificuldade, uns dias depois é o Presidente do grupo parlamentar do PS que diz que andar de Renault Clio seria uma vergonha. E se fossem gozar com a família deles?

A actual classe política envergonha qualquer cidadão. Um pai não pode dizer a um filho que este não pode comer chocolate quando tem os dentes sujos do mesmo. É preciso dar o exemplo. O povo está a ficar cansado de ser gozado. Como é possível que o Presidente da República não repare que a bandeira nacional está ao contrário e depois, o mesmo estado que chefia, na semana seguinte, constitua arguido um artista plástico que utiliza a bandeira numa obra de arte, acusando-o de injúria a símbolo nacional?! Perdão? Dois pesos e duas medidas?

Não chega vir agora a descobrir-se que o BPN não foi criado nem por banqueiros nem por investidores mas terá sido fundado por políticos para "desviar" dinheiro do Estado? Não chega termos vindo a pagar milhões e milhões de euros, a empresas internacionais, por estudos e pareceres de que nada serviram? Não será demais acabar de contratar e assumir salários na ordem dos 300 mil euros por ano aos gestores da nova Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública? Senhores políticos, tenham cuidado porque o povo começa a descobrir-vos o truque…

“O povo começa a cansar-se de ser enganado…”

TSU

Luis de Matos - Thursday, October 04, 2012 - Comments (177)

TSU é a sigla que Pedro Passos Coelho colocou na boca dos portugueses, mesmo na daqueles que nunca dela ouviram falar ou que hoje continuam sem saber a que se refere. A Taxa Social Única é tão somente uma medida contributiva para a Segurança Social, cujo valor em euros é percentualmente calculado a partir do vencimento de cada trabalhador e entregue por este e pela sua entidade patronal ao Estado. Cada trabalhador entrega ao Estado 11% do seu salário e cada patrão entrega 23,75% sobre esse mesmo salário de cada empregado. Assim, numa empresa com, por exemplo, mil empregados em que cada um aufere 1000 Euros por mês, os valores seriam os seguintes: Empregados entregam, individualmente 110 Euros e a entidade patronal, depois de pagar integralmente todos os salários, deverá, além disso, entregar ao Estado, mensalmente, o montante de 237.500 Euros.

A medida apresentada pelo Primeiro Ministro caiu como uma bomba e foi resumida por quase todos como uma forma escandalosa de tirar dinheiro aos empregados para dar aos patrões. Fruto disso mesmo, acredito que a sigla TSU tenha passado a ser, simultaneamente, tabu e arma de arremesso, mesmo daqueles que nem sequer estão disponíveis para descobrir que alterar a TSU poderia vir a constituir um caminho possível. A medida foi mal desenhada e, ainda, pior explicada. Tirar 8% aos empregados e dar 8% aos patrões é patético. Primeiro porque, na prática e numa análise simplista, não se traduz por nenhum aumento de receita para o Estado. Segundo, porque é uma medida que, como acabou por acontecer, pode ser reduzida à tal simples e sensacionalista frase... “Passos Coelho tira dinheiro aos empregados para dar aos patrões”.

A segunda parte da patetice da explicação passou por dizer que, ao reduzir a TSU para as empresas, se estaria a potenciar o emprego. Como se alguma empresa fosse a correr contratar mais funcionários só porque passou a pagar menos de Segurança Social. O que deveria ter sido dito é que, para muitas empresas, reduzir a TSU significa não aumentar o desemprego. Milhares de empresas em Portugal vêm acumulando avultadas dívidas à Segurança Social. O dinheiro já escasseia para os ordenados quanto mais para, em cima desses, pagar mais 23,75%. Em caso de dúvida, perguntem às 25 empresas que, diariamente durante 2012, têm fechado por falência. Por isso digo, independentemente de alterar ou não a TSU paga pelos funcionários, é urgente reduzir a paga pelos patrões, sob pena de que o índice de empresas que vão à falência aumente e com ele o flagelo do desemprego se torne ainda mais insustentável.

E muitos dizem... Mas os patrões até vieram dizer que isso não era necessário. Sim, claro. E porque isso até é agradável de ouvir ninguém questiona. Os patrões que tomaram a dianteira contra a redução da TSU estão ao mesmo nível daqueles bons alunos que se manifestam contra o adiamento dos testes e marcação de aulas para tirar dúvidas... eles fizeram bem o seu trabalho e não só desejam a sua merecida recompensa como, em acumulação, desejam que todos os que estão à volta reprovem. Às empresas que “altruisticamente” desejam que a TSU não desça, continuará a dar imenso jeito que milhares de outras empresas continuem a fechar. Dessa forma, os seus concorrentes directos não aguentam e caem. Nessa altura a concorrência diminui e o lucro, de uns poucos, aumenta. Ou será que ninguém percebe que é isso mesmo o que está a acontecer com o comércio tradicional. Ninguém repara que as grandes empresas não estão a fechar? Um destes dias os cidadãos com carro também virão à televisão dizer para acabarem com os transportes públicos já que para eles são desnecessários.

“Nem tudo o que luz é ouro, nem tudo o que parece mau, de facto, é...”

O Polvo

Luis de Matos - Thursday, September 20, 2012 - Comments (3)

O dinheiro é estéril, não se reproduz, apenas muda de mãos. O dinheiro não se multiplica, apenas se movimenta na direcção dos agentes que geram benefício através do acréscimo de valor. Por exemplo, numa visão simplista, alguém compra um casal de porcos por “x”, os cuida e alimenta durante um tempo, e, mais tarde, os vende já crescidos, por “y”. O acréscimo resulta do trabalho, conhecimento, engenho, risco e capacidade empreendedora. Até aqui tudo bem. O problema surge a partir do momento em que a sociedade moderna converteu a economia numa lotaria especulativa. Os bancos, por exemplo, emprestam dinheiro que não têm a juros que não deviam, debaixo do olhar calmo dos governos. Um pequeno exercício de abstracção poder-nos-ia levar a encontrar grandes semelhanças com fraudes do tipo Madoff ou Afinsa. Mas isto é apenas um dos tentáculos do polvo que se esconde, camuflado sob o olhar cúmplice daqueles que dele dependem.

Hoje em dia, as grandes máquinas partidárias e as carreiras milionárias de muitos dos seus protagonistas que estiveram, estão ou virão a estar no governo, confunde-se com um grande polvo impossível de aniquilar. Um polvo que vive nas águas calmas do aquário formado pelas empresas públicas e as privadas que devem favores aos governos. O problema de Portugal não se resolve enquanto não se cortarem os tentáculos do polvo. Quantos protagonistas medíocres, de carinha laroca e alto grau de chico-espertice, ganham salários de quarenta e cinquenta mil euros pagos pelo estado ou por empresas a quem concederam favores quando a sua posição o permitia? E aqueles a quem alguns privados concederam o título de “gestores não executivos” para poderem pagar favores, por “nós” concedidos sem sabermos, à taxa de 7.400 euros por reunião? Ninguém denuncia? Ninguém acha estranho? E os próprios? Não têm vergonha?

O dinheiro não se reproduz e também não estica. Enquanto não o tirarem a quem descaradamente o desvia e mantém o sorriso, não há sacrifício que resulte. Grande parte dos nossos sacrifícios servem para alimentar o polvo, tornando-o mais forte e impossível de combater. É preciso dizer basta e cortar os tentáculos, sob pena de com eles morrermos asfixiados.

Sou dos que defendem que os políticos devem ganhar muito dinheiro. Tanto quanto for necessário para que não precisem de se corromper. Tanto quanto for necessário para que possamos pedir responsabilidades sem que se possam esconder na imunidade parlamentar. Quanto ao valor dos seus salários, parece-me evidente que o Presidente da República seja quem mais ganha, seguido do Primeiro Ministro, restante governo e deputados. Contudo, nenhum outro cargo pago directamente pelo Estado ou através de uma qualquer das suas empresas públicas, deve ser superior ao dos anteriormente referidos. Onde já se viu um “gerente de loja” ganhar mais do que um administrador? Só no Estado isso acontece. Um professor que nos prepara para a vida ganha mil euros, o político que dorme na Assembleia da república ganha sete vezes mais.

Ao ver manifestações como a que aconteceu no sábado passado voltamos a lembrar-nos que o país é dos cidadãos. Parece que nestas alturas não temos dúvidas da nossa força e parece até sabermos claramente o que queremos para o nosso país. Por que razão, em altura de eleições, não conseguimos escolher as pessoas certas? Os actos eleitorais têm apenas servido para reforçarmos a confiança no “Polvo”. O mesmo polvo que, quando lhe apetece, faz desaparecer os documentos relativos à compra dos submarinos ou inventa prateleiras douradas que temos que sustentar. Não estaremos a precisar de um governo sem partidos, onde as ideologias são substituídas por soluções razoáveis e sem agenda política paralela?

“É preciso explicar aos governantes que eles são empregados do povo!...”

Encontros Mágicos

Luis de Matos - Thursday, September 06, 2012 - Comments (0)

Durante duas décadas, ano após ano, Coimbra converte-se, por uma semana, numa cidade ainda mais mágica. O Festival Internacional de Magia de Coimbra é a mais antiga inciativa realizada em Portugal no âmbito da Arte Mágica e exclusivamente dirigida ao público em geral. Da responsabilidade do pelouro da cultura da Camâra Municipal de Coimbra, nasceu em Julho de 1992 pela mão do mágico conimbricense Hortiny (José Carlos Gomes) e viria a ser retomado em 1998, sem interrupções a partir desse ano, integrado num conceito mais abrangente e que inequivocamente se afirmou sob a designação de Encontros Mágicos.

Os Encontros Mágicos são, assim, uma organização da Câmara Municipal de Coimbra, com o apoio do Teatro Académico de Gil Vicente e a chancela de “superior interesse cultural” do Ministério da Cultura, a única alguma vez atribuída a um festival de magia. A produção e direcção artística é assinada por este V. amigo e sua equipa.

Os Encontros Mágicos são especiais. A arte mágica celebra-se em Coimbra de uma forma absolutamente singular. A magia chega a todas as idades, a todos os estratos sócio-culturais ou económicos. A arte de criar ilusões desafia todos de forma indiferenciada seja nas ruas, nas praças, nos jardins, no Teatro Académico de Gil Vicente, ou nas visitas ao  Estabelecimento Prisional ou ao Hospital Pediátrico. É assim há anos. Em cada edição o número de espectadores vai subindo. Entre habituais e novos fans, a semana dos encontros ganha forma nas múltiplas, e por vezes improváveis, experiências de cada um de nós com cada um dos “mestres” que visita Coimbra em cada edição.

Das cinquenta e duas semanas que compõem cada ano, só uma delas é capaz de nos fazer acreditar no impossível. Os truques utilizados por cada mágico nas suas ilusões são, pelos públicos, convertidos em momentos de pura magia onde o único limite é a imaginação de cada um que a ela assiste. É por isso que não podemos deixar escapar esta semana, temos que a viver com a maior intensidade e em toda a sua plenitude. Há muito que se perdeu a noção de “espectáculo familiar”. Essa designação quer dizer quase sempre, hoje em dia pelo menos, espectáculo para crianças acompanhadas por pelo menos um adulto. A semana dos Encontros Mágicos nada tem a ver com isso, ela possibilita uma verdadeira comunhão cultural, plena de experiências, onde todos podem ir, voltar e recordar juntos.

Este ano chamo particular atenção ao que irá acontecer nos dias 21 e 22 de Setembro, Sexta e Sábado, respectivamente, no TAGV. A grande gala internacional de magia, para além da extraordinária qualidade que é habitual, contará com três dos recentemente premiados no Campeonato Mundial de Magia. Será, uma vez mais, uma oportunidade única de assistir a trabalhos extraordinários que nos chegam dos quatro cantos do mundo.

O código que abaixo se reproduz leva-nos à página do Facebook dedicada aos Encontros Mágicos. Fica aqui o desafio, partilhem o v. olhar com todos quantos a visitam. Vamos converter este canto da internet no local onde registamos e partilhamos com o mundo e para futuro, os momentos vividos durante o 16º Festival Internacional de Magia de Coimbra. Vemo-nos por aí...

“Há duas décadas a fazer sonhar centenas de milhares de pessoas… ”

Esparrela

Luis de Matos - Thursday, August 16, 2012 - Comments (5)

Não sou jornalista. Tão somente fui convidado para neste espaço partilhar ideias e dar opiniões. É nessa condição que esta semana tenho que dizer que, “na minha opinião”, esta publicação caiu numa armadilha que, a avaliar pelo artigo assinado por Maria Ferreira Santos, também terá envolvido a Universidade de Coimbra na alegada capacidade de algumas pessoas  comunicarem com os mortos. A história repete-se ao longo dos tempos. Porém, nos dias de hoje, seria de esperar acrescido rigor e critério quando falamos de uma área que, de forma igualmente cíclica, se consubstancia numa sequência de fraudes, ou simples erros de análise, que, de tão ingénuos, roçam o patético.

O título da capa dizia que “cientistas desvendam a mente dos médiuns”. Tendo em conta que até hoje não foi publicado nenhum estudo científico em que qualquer braço de qualquer ramo da ciência aceitasse a condição de “médium” tal como a cultura popular a define, pode dizer-se que a frase é tão estranha como estranhas seriam as afirmações do tipo “cientistas desvendam sistema linfático do rato mickey” ou mesmo “cientistas desvendam a real origem dos poderes do super-herói Batman”. A ciência é um lento e laborioso caminho em direcção ao conhecimento, em que dar saltos como quem põe “sal a gosto” não é uma opção. A ciência não dá por assumidos factos tão simplesmente porque a cultura popular, ou alguns que ainda não perceberam o respeito que devem ao rigor do método científico, assim lhes apraz ditar.

Produzir conhecimento científico, seja ele novo ou fruto de uma interacção, passa por um conjunto de regras básicas que não podem ser atropeladas com retórica e imaginação popular. Crenças e religiões não convivem bem com o “método científico”, tendo mesmo, em termos históricos, grandes dificuldades em interagir. A dúvida sistemática e a decomposição do problema em pequenas partes definem a base da pesquisa científica. É preciso primeiro compreender cada elemento, perceber como interagem entre si, para então compreender o todo.

Não sei se o problema está nos alegados cientistas ou na forma como a peça foi elaborada. O que sim sei é que o texto que fez capa na passada edição pode levar a que milhares alimentem uma fantasia que ciclicamente ao longo da história atrai as atenções e de seguida cai no ridículo. Para que rapidamente duvidemos do relato basta olhar para a linha do tempo que ilustra a peça numa tentativa desesperada de fazer acreditar na idoneidade dos elementos. Essa linha do tempo refere como verdadeiros factos que há muito foram catalogados como fraudes quase patéticas, incluindo referências a pessoas ou fenómenos tomados como verdadeiros no momento em que surgiram mas que há séculos foram desmascarados como fraude. A fotografia espírita, por exemplo, foi acidentalmente descoberta em meados do Sec. XIX por William H. Mumler, joalheiro e fotógrafo que, depois de um engano de “dupla exposição” na câmara escura, percebeu que ganharia mais dinheiro e fama se passasse a anunciar-se como médium e demonstrasse ser capaz de revelar em foto impressa a presença de espíritos em redor de humanos.

Mas quem verdadeiramente tiver cusiosidade em entender o mundo da fraude mediúnica, em grande parte não intencional e tão somente popular e viral, não pode deixar de ler as confissões de M. Lamar Keene que, depois de 13 anos de internacionalmente reputado médium, lhe valeram perseguições e tentativas de assassinato após a publicação do revelador livro intitulado “The Psychic Mafia”. Basta seguir o código abaixo e ter acesso ao PDF...

“Ciência onde os resultados são fruto da imaginação não é ciência...”

UAU!!!

Luis de Matos - Thursday, August 02, 2012 - Comments (3)

No dia do espectáculo de abertura dos Jogos Olímpicos, 27 de Julho, outro grande acontecimento mundial tinha o seu início. Tratava-se, contudo, de um acontecimento não destinado às grandes massas e que, apesar de global, acontecia “à porta fechada”. Refiro-me a uma conferência transmitida em directo para 74 países do mundo, ao longo de três dias, protagonizada pelos melhores entre os melhores de uma área artísitica muito específica, reunidos num canto do mundo e, através da internet, globalmente disponíveis para mais de 2.000 profissionais. Até aqui, nada de surpreendente.

Imaginemos agora que o local a partir do qual a referida conferência se realizou não era Nova Iorque ou Tóquio mas que, para grande alegria nossa, acontecia em Portugal. Mais difícil de imaginar seria o facto de que, caso acontecesse em Portugal, não fosse Lisboa a cidade anfitriã. Pois é, o acontecimento a que me refiro aconteceu na Vila de Ansião pelo terceiro ano consecutivo! Em directo a partir do Estúdio 33, os melhores mágicos do mundo partlharam criatividade, conhecimento, experiência e visão.

Para melhor entender o impacto da EMC2012 (Essential Magic Conference), basta fazer uma qualquer pesquisa rápida na internet com palavras como “@EMConference”, “#emc2012” ou simplesmente “Essential Magic Conference”. Os resultados são difíceis de acreditar mas ilustram o impacto de um simples sonho que magicamente se tornou realidade. No primeiro ano, a EMC foi apelidada de “Extraordinária”, no Segundo classificaram-na de “Épica” e, por fim, no terceiro ano, a palavra unânime de quem a ela assistiu pelo mundo fora foi de “nuclear”. A Essential Magic Conference escreveu três páginas da história da magia que jamais poderão ser apagadas. Páginas que marcaram um marco absolutamente único de uma história tão longa quanto a da humanidade.

No final de 9 sessões absoluatmente incríveis, de 27 a 29 de Julho, foi altura de surpreender não só quem acompanhava o evento através da internet mas também aqueles que, dos quatro cantos do mundo, se reuniram em Ansião. A fórmula parece simples mas o que a tornou real foi a amizade, a arte e a generosidade de mais de 100 músicos que, no final da EMC2012, no exterior do Estúdio 33, em Ansião, interpretaram, em directo, para 74 países espalhados pelos 5 continentes, interpretaram o tema “ALEGRIA” de David Benoit. Foi absolutamente épico, e por isso enorme agradecimento à Filarmónia de Santa Celília (Ansião) e à Sociedade Filarmónica Santa Filomena. Parabéns a todos quantos fizeram a EMC2012. Obrigado eterno à equipa que generosa e fielmente me acompanha nestas loucuras.

Na foto a que o código abaixo nos encaminha podemos ver alguém que, tendo sido convidado para a abertura dos Jogos Olímpicos 2012 não deixou de consigo levar o seu computador portátil e simultaneamente assistir ao que naquele momento, em directo, acontecia em Ansião durante a Essential Magic Conference.

“As ideias não têm que confinar-se à geografia…”

E Depois?

Luis de Matos - Thursday, July 05, 2012 - Comments (17)

Acabou-se o EURO2012. Bem sei que se eu começar por dizer “qual é o problema?” talvez 3 dos meus 4 leitores assíduos fiquem profundamente irritados comigo e nem sequer leiam o resto, começando mesmo a chamar-me nomes feios repletos de adjectivos pouco dignificantes. A verdade é que não percebo a provincianice histérica em volta da selecção de futebol.

Todos dizem que quando a selecção ganha é muito bom para Portugal e para a nossa imagem no mundo, porém, quando digo “ai sim? Então explica lá…” ninguém explica. Todos querem acreditar que, se Portugal ganhar um simples jogo de futebol, há logo milhares e milhares de turistas que compram passagens para o nosso país ou abrem mesmo sucursais das suas empresas em Portugal. Outros devem mesmo estar à espera que isso influencie as agências de rating, outros, ainda, sonham com os estrangeiros a pensarem que somos todos como o Cristiano Ronaldo, quando, na prática, nos limitamos a usar o seu champoo que, entre outras maravilhas, promete acabar com a comichão e a oleosidade. Pessoalmente, não posso ver com bons olhos a simplista confusão entre uns quantos desportistas de uma modalidade e todo um povo.

No meu modesto entender, a única coisa que poderia servir para algo nestas ocasiões seria a consciência de que se nos unirmos seremos mais fortes. Mas não, a potencial lição sempre se esfuma e reduz a uma atitude passageira e efémera que voltaremos a tirar do armário quando onze de nós forem novamente “representar” o nosso país. Peço desculpa, mas a mim não me representam. Não me identifico com homens que de quinas ao peito batem em árbitros, como o João Pinto há uns anos, ou lutam entre si porque querem a todo o custo ser titulares e dessa forma ter mais visibilidade para facturar mais a seguir, como o Ricardo Quaresma e o Miguel Lopes.

Festivais como o Campeonato Europeu de futebol não são mais do que uma extraordinária acção de relações públicas e marketing pessoal que todos ingenuamente patrocinados como rebanho.   Nada contra o facto de alguns jogadores verem o seu perfil desportivo e valor de mercado aumentado como consequência de boas exibições. A única coisa que me deixa triste é que nem políticos, nem comunicação social, nem, consequentemente, o povo se unem para apoiar outros portugueses cuja excelência está, pelo menos, ao mesmo nível. Quantos nossos concidadãos são cá e lá fora casos de absoluta singularidade e excelência? Pois é, por esses também deveríamos colocar bandeiras na janela e gritar FORÇA PORTUGAL! Mas não, resumimo-nos ao futebol. E porquê? Porque nos faz esquecer que é preciso lutar para sair da profunda crise em que vivemos e a qual nem sequer conhecemos em toda a sua extensão. Os problemas não desaparecem só porque fingimos não os ver, apenas se adiam e agravam.

Por último, e na esperança de que pelo menos um leitor tenha chegado até este parágrafo, peço que não me tomem por arrogante e insensível. Acreditem, não estou sozinho na perplexidade. Olhem à volta e vão encontrar outros que, por se julgarem simplesmente diferentes, não têm a coragem de questionar a lógica da cenoura na ponta de um pau ou do assobio que orienta o rebanho.

“Será o futebol o último refúgio da nossa dignidade? Acho que não…”

Madonna

Luis de Matos - Thursday, June 28, 2012 - Comments (4)

O Turismo de Coimbra fez um excelente trabalho ao conseguir para a cidade um evento que a fez ser visitada por dezenas de milhares de pessoas. Coimbrinhas, temos que estar orgulhosos. Parabéns, Coimbra! Obrigado Luis Providência e equipa!

O estádio encheu-se de fans de Madonna. Vieram de todos os sítios e trouxeram a descendência.   O ambiente era óptimo e a festa transversal. A circulação no perímetro do Estádio foi bem gerida e respeitada. Tudo a quanto assisti decorreu de forma ordeira e civilizada. Uma palavra especial para as equipas de polícia e segurança que souberam usar de simpatia e saber para a todos fazerem sentir bem. Foi bom ver o estádio cheio e Coimbra repleta de milhares e milhares de carros por todo o lado. Apesar disso, não vi passadeiras bloqueadas ou entradas de garagem obstruídas.

Gostei de ver no centro do relvado a roulotte do Psicológico! Com mais clientes do que os “chiringuitos” da Sagres, foi uma forma de premiar a perseverança de um clássico da cidade. Longe vão os tempos do hamburger queimado em chapa que grita por uma espátula. A roulotte do Psicológico estava impecável, da limpeza à simpatia da sua dezena de empregados, passando pela qualidade. Quem não comeu um cachorro Psicológico não fez o melhor investimento da noite. Por outro lado, um copo de cerveja a dois euros e meio era quase um assalto à mão armada, sobretudo tendo em conta que as barraquinhas da marca tinham o exclusivo de um recinto fechado com 40.000 pessoas que, na sua maioria, entraram para o estádio entre as 17:30 e a 18:30, saindo de lá por volta da meia-noite.

Em geral o espectáculo é bom mas não extraordinário. O principal erro está na relação da sua dimensão com o espaço propriamente dito, especialmente na implantação do palco. Tendo em conta que os bilhetes eram especialmente caros, não faz sentido que, a partir do meio campo, não se veja o que se passa e se ouça com distorção. O pouco que a Rainha da Pop disse não se percebeu ou ouviu-se mal. É difícil resistir à tentação de tentar vender o maior número de bilhetes possível, colocando o palco no topo norte onde as cadeiras perdidas são em menor número. Contudo, o espectáculo a que assisti teria sido outro, e bastante mais bem recebido se, como recentemente aconteceu num estádio em Tel Aviv, o mesmo palco tivesse sido colocado junto a uma lateral e o relvado aproveitado no sentido da largura. Dessa forma a proximidade à acção seria extraordinariamente maior e mais pessoas teriam realmente visto o que acontecia no palco.

Quanto a Madonna, é sabido que o seu forte não são os espectáculos ao vivo. Imbatível na carreira, fazedora de história nos videoclips, sempre à frente nos recordes de vendas, é especialmente pouco calorosa na sua relação com o público. Para além de decorar o nome do país em que actua, pouco ou nada mais diz além de duas ou três vulgaridades que, apesar de apelarem a um mundo melhor com amor e sem guerras, são ditas sem qualquer sentimento ou credibilidade.

Os conteúdos de vídeo que mantêm o espectáculo a acontecer, mesmo nas vezes demais em que a cantora sai para trocar de roupa, são excelentes e muito bem produzidos. O desenho de luz é impecável. Curiosa e bem conseguida a inclusão de exercícios de “slacklining”, mas que perdem o brilho com a repetição pouco imaginativa que acontece na parte final do espectáculo. O espectáculo foi claramente desenhado para salas como Madison Square Garden em Nova Iorque ou Pavilhão Atlântico em Lisboa, ficando curtinho num estádio. A grande maioria dos momentos teria outro brilho num recinto fechado. Talvez aí, versões como a que apresentou de “Like a Virgin” não tivessem caído num pretenciosismo que não era esperado. Madonna esqueceu-se que a única coisa que a maioria queria era ouvir as músicas tal como as vem conhecendo nas últimas décadas. Na opinião de muitos, o único momento conseguido foi justamente a interpretação de “Like a Prayer”. Para além de fiel ao original, e com sabor a mega produção, foi onde o público vibrou e ficou sensibilizado por a cantora empunhar uma bandeira portuguesa.

Mas, sinceramente, para mim o menos importante foi o espectáculo. Ficou a alegria e orgulho de ver Coimbra como anfitriã de um grande acontecimento que ultrapassou fronteiras. Foi muito bom. Só precisamos que se torne um hábito.

“E se Coimbra se tornasse a capital Ibérica dos grandes concertos?...”

Metamorfose

Luis de Matos - Thursday, June 21, 2012 - Comments (2)

Em biologia, metamorfose é uma mudança na forma e na estrutura do corpo, bem como um crescimento e uma diferenciação dos estados juvenis ou larvares de muitos animais até chegarem ao estado adulto. Na vida de uma pessoa, essa metamorfose é menos evidente mas acontece de forma diária e constante. Cada momento que vivemos contribui para o nosso próprio crescimento e evolução. A forma como olhamos o mundo e todos os que nos rodeiam é progressivamente diferente, tendencialmente mais tolerante e quase sempre proporcional à nossa própria maturidade. Mudamos de opinião, mudamos de gostos e, acima de tudo, refinamos a nossa atitude, na medida das nossas próprias vivências e, idealmente, tornando-nos melhor influência junto da nossa comunidade. Há mesmo quem defenda que o homem mais inteligente é aquele que mais vezes mudou de opinião. Os valores ficam, acentuam-se e revelam-se indisfarçavelmente nos nossos mais pequenos actos.

No domingo passado assisti a uma metamorfose. Num supermercado cruzei-me com alguém que me cumprimentou discretamente, confirmando a seguir se era mesmo eu. Retribuí o cumprimento e mantive uma conversa de circunstância que não deixava antever a alegria que viria a seguir dez minutos mais tarde. Quem me interpelou, começou por referir as visitas que eu fazia lá em Coimbra… não percebi por se tratar da cidade em que vivo há quase duas décadas. A conversa prosseguiu e, de repente, fez-se luz. Estava a falar com alguém que, sem guardar disso uma recordação precisa, eu havia visitado regularmente nos últimos cinco anos. As sucessivas visitas não haviam sido feitas de forma individual. Os visitantes eram os mágicos que em cada ano vieram aos Encontros Mágicos de Coimbra, os visitados eram um grupo em que esta pessoa de que vos falo se encontrava. O Estabelecimento prisional de Coimbra foi o local em que cada uma dessas visitas aconteceu.

Quem me interpelou foi um dos reclusos que, passados quase seis anos de pena cumprida, se encontra agora em liberdade condicional até ao final de 2015. Fiquei feliz porque me recordou e teve a coragem de se identificar numa circunstância onde nada o obrigava a recordar e expor o seu passado. A sua atitude recordou-me que somos hoje aquilo que o passado nos ensinou. Na curta conversa que mantivemos, percebi que o seu bom comportamento foi o grande segredo de agora estar em liberdade, apesar de condicional. Hoje, com a ajuda da sua esposa, encontra-se a construir a sua casa e é feliz.

O que mais me surpreendeu foi quando me disse que o tempo passado na prisão não foi perdido. Reconhece agora em si mesmo uma nova pessoa. Aprendeu com os seus erros e cresceu o suficiente para os olhar como distantes. Entende que foi importante e que graças a esse período da sua vida é hoje mais feliz porque está orgulhoso de ser um novo homem.

“Mudar é a maior virtude sempre que nos tornamos maiores e melhores…”

Jardins

Luis de Matos - Thursday, June 14, 2012 - Comments (0)

Ponte de Lima é uma terra que, apesar de fazer inveja a muitas cidades, continua a insistir em ser vila. As suas gentes e os seus dirigentes celebram a ruralidade com um singular orgulho e excelência. Da secular tradição da “Vaca das Cordas”, em que milhares de forasteiros invadem o centro histórico atrás de uma vaca guiada por cordas, até à “Feira do Cavalo”, de espectacular dinâmica desportiva, cultural e turística, e que rapidamente conquistou um lugar cimeiro ao nível dos eventos equestres, Ponte de Lima reinventa-se a cada instante através das múltiplas ofertas criativas que contribuem extraordinariamente para a dinamização da vila e da região do Alto Minho.

Recentemente completei a minha terceira viagem a Ponte de Lima. Em 2002, o magnífico Teatro Diogo Bernardes recebeu o nosso espectáculo “CLOSE-UP”. Dois anos mais tarde por lá passou o “ENIGMA” e, oito anos depois, em Maio passado, lá estivemos com a digressão actual “CHAOS”. Qualquer uma destas três visitas a Ponte de Lima, memoráveis pelo menos para nós, deixou sempre a vontade de voltar e sentir ainda mais de perto uma genuína forma de estar na vida que diariamente se celebra num concelho em que vale a pena viver. Os encantos da mágica vila são muitos e altamente recomendáveis.

Fruto da evidente capacidade criativa das gentes de Ponte de Lima, conhece este ano a oitava edição uma das mais inovadoras iniciativas a nível cultural, que actualmente se realizam em Portugal, e que consegue ter verdadeira repercussão além fronteiras… O Festival Internacional de Jardins. A Cerimónia de Abertura da 8ª edição do Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima aconteceu no passado dia 25 de Maio, com toda a pompa e circunstância que a presença de políticos e ilustres impõe. O anfitrião foi o Eng. Victor Mendes, Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, salientando-se a presença do Secretário de Estado do Ambiente e Ordenamento do Território, Dr. Pedro Afonso de Paulo, e, muito especialmente, uma enorme embaixada de políticos e autarcas da vizinha Galiza. Ponte de Lima, para além de ser um Município sem dívidas, ostenta uma estratégia de desenvolvimento largamente assente na sua cultura e nas suas tradições. A identidade cultural da região está bem patente em tudo quanto por ali se faz e, acreditem, faz-se com excelência.

A edição de 2012 do Festival de Jardins acontece sob o lema “Jardins P’ra Comer”. Os candidatos apresentaram verdadeiras obras de arte com referências altamente originais às mais diversificadas áreas que se relacionam com o tema proposto, desde jardins-horta a canteiros aromáticos, passando pela roda dos alimentos e ainda um sem inúmero de ideias e projectos que convidam o visitante à reflexão ou à experimentação de novos sabores.

Anualmente o Festival conta com o apoio público de uma figura que se associa ao evento na promoção e divulgação do mesmo. Este ano a escolha da pomposamente chamada “Personalidade Nacional de Honra” recaiu sobre este humilde servidor. Assim, é com grande honra e orgulho que recomendo vivamente que, até 31 de Outubro, diariamente, das 10 às 19 horas, não deixem de visitar o 8º Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima. Vão ver que vale a pena!

“Ponte de Lima oferece Jardins para Comer…”